A Loucura do Elogio

“Não ponho a máscara como aqueles que pretendem representar um papel de sábios e andam desfilando como macacos vestidos de púrpura e como asnos com peles de leão.” 
– Erasmo de Roterdão

 

Hoje, não vou divagar sobre a loucura. O trocadilho do título significa, apenas, que vou cometer a loucura de dedicar este artigo de opinião a… elogios.

 

É, de facto, uma opção inusitada: como dizia o comediante Tim Minchin, numa palestra que um amigo fez o favor de partilhar comigo, nós temos a tendência de nos definir por oposição às coisas, às pessoas, às ideologias: não gosto do José, detesto as feministas, odeio liberais, etc. (estes exemplos são totalmente aleatórios), quando devíamos ser generosos e positivos na demonstração dos nossos afectos, simpatias e preferências. Se somos bem atendidos, se ficamos satisfeitos com um serviço, porque não dizê-lo? Porque do outro lado estão pessoas cuja obrigação é atender-nos e servir-nos, porque é por isso que lhes pagam, ou porque é para isso que pagamos impostos? Não, eu não penso assim…

 

No último ano, no programa de literacia financeira que desenvolvi junto dos centros comunitários sob tutela da CMF e da Sociohabitafunchal, dediquei muitas sessões aos direitos do consumidor. Obviamente, ensinava como se deve utilizar um Livro de Reclamações e incentivava os utentes a recorrer à reclamação, sem receios nem contemplações, sempre que se considerassem lesados. Nunca me esqueci, porém, de dar a conhecer a existência do Livro de Elogios e de recomendar que as pessoas tirassem alguns minutos do seu tempo para reconhecer o valor de quem cumpre o seu “dever” de forma exemplar.

 

Foi isso que decidi fazer, há alguns dias, no Centro de Saúde do Bom Jesus. Despendi algum tempo a preencher um elogio, no livrinho respectivo. Quem conhece minimamente este Centro de Saúde, sabe que se trata do mais importante da região e o que maior número de pessoas atende. Esteve em obras ao longo de quase uma década, sujeitando todos os que lá trabalham a condições muito difíceis, por vezes em espaços exíguos, sem arejamento, com tectos esburacados, tubos enferrujados, fios enrolados e exposição a produtos e substâncias perigosas. Aqui, sim, é mais que justa a crítica à tutela: porque demorou tanto a resolver estes constrangimentos?

 

Mas do que venho aqui falar é de pessoas, não de paredes. Nos últimos meses, tanto eu como outros elementos do meu agregado familiar temos recorrido a este centro. É impressionante a simpatia, a qualidade do atendimento, o cuidado no acompanhamento, a dedicação e o profissionalismo de todos com quem temos lidado.  

 

A todas as funcionárias dos balcões de atendimento, enfermeiras e médicas, o nosso obrigado. Ninguém é pago para sorrir, para ser caloroso, para ir além das suas obrigações, para se preocupar com a saúde e bem-estar de cada utente. Basta uma pequena falha, num dia menos bom, para choverem críticas. Pois, hoje, fica aqui lavrado um elogio público, na expectativa de que outros também o façam.

 

Mudando ligeiramente de assunto, aproveito para também elogiar as várias empresas que têm tido a gentileza de responder aos meus e-mails.

 

Aparentemente, perdeu-se o hábito de dar resposta a e-mails. Pedidos de informação, solicitações de orçamento, envios de currículos, pedidos de emprego… ficam esquecidos na caixa de correio do destinatário. Há quem nem tempo tenha para responder a e-mails pessoais dos amigos.

 

A gentileza de uma resposta é sempre bem-vinda.

 

Mas, chega de elogios! Daqui a 15 dias, voltam as críticas, que eles andam aí todos em campanha...