Troco em “gansemes”

No último mês foi tal o elenco de acontecimentos no panorama noticioso e eleitoral que se os fosse a enumerar, assemelhar-se-ia a um rol de mercearia.

A propósito da atual questão de evitar os plásticos, visitei um dia destes um dos poucos estabelecimentos que permanecem ativos e intocados pelo devir dos tempos (mas que afinal são moderna trend). Após as compras, bens acondicionados nos frascos reutilizados, trazidos de casa (regras modernas… e antigas de bom senso), entregue o numerário a pagamento, aguardei ouvir o nostálgico: “O troco é em “gansemes”.

Os “gansemes”, substituíam a necessidade de fornecer o numerário da diferença e ao mesmo tempo promoviam “vendas” adicionais e os respetivos lucros, ainda que desnecessárias ao comprador titular do troco.

Ao contrário do que se possa pensar, não é assim tão arcaica a transmissão de montantes através de títulos de crédito impróprios, entre entidades, como faziam os merceeiros com os “gansemes”, ainda que tenha decaído o uso do lápis atras da orelha.

Facilmente se recordarão da compra, por parte da Câmara Municipal do Funchal, de avultado número de entradas para complexos balneares municipais (ao preço máximo, sem descontos de quantidade ou qualidade), por forma a encaixar o necessário montante no orçamento da sociedade gestora, onerada por gordos quadros de pessoal não operativo. Sem explicações ou deliberações em Assembleia Municipal. Assim se solucionou, a questão da abertura tardia de complexos balneares, a correspetiva amputação de receitas e os ganhos depauperados (relativos aos estacionamentos municipais) pela inexistência de fiscalização, quer do respetivo pagamento, quer da não aplicação da cominação da sua falta. Em montante indeterminado, mas certamente avultado.

É de relevar a inexistência de uma fundamentação consubstanciada de tal aquisição. São 80.000 bilhetes para a praia que gastaram 300.000 euros dos Munícipes Funchalenses. Pronto!

São para quem? Porquê? Quais são os critérios de atribuição e distribuição?

Estranhamente, na compra de um Diário ganha-se uma entrada para a praia.

Foi, para os munícipes do Funchal, como “comprar” coercivamente 80.000 “gansemes” pelo valor de “troco” de 300 mil euros. Isto a acontecer com 2 ou 3 “gansemes” que um miúdo trouxesse para casa (pelo valor máximo de 15 escudos à data), podia passar sem puxão de orelhas pelo esbanjamento de dinheiro próprio, mas não com um montante de 300.000 euros de dinheiro público. Para mais, sendo um negócio entre duas entidades públicas, de natureza municipal (o mesmíssimo município!).

É um comportamento recorrente, todavia. Foi adiantado pelo candidato do Terreiro do Paço, em grandes parangonas, que o montante para “resolver a saúde na região” era de 75 milhões de euros, sem explicações adicionais além do facto de se pretender comprar um hospital privado que se sabe ter custado cerca de 45 milhões de euros. Foi evidente a diferença de valores (e a celeuma que tal negocio levantaria) e foi preciso esperar por dia 22 de Junho para afinal se identificar o “troco”: uma soma de operações disto e daquilo, em número adequado a perfazer a conta certa. Como quem escolhe troco “gansemes” de diversos sabores.

Desta feita…o troco não era de 300.000 euros! Era de 30 milhões de euros! Um grande troco, portanto, em “gansemes” de diversos sabores!

Mas, o que poderá saber sobre a saúde regional?! Um agrupamento ideologicamente atípico que não conseguiu resolver as questões de saúde do país em que se propugna, ministerialmente, a mesma teoria de mandar vir contentores de médicos (ou paletes, conforme o numero desejado), lamentando-se haver profissionais em escasso numero para a demanda, sem se ter acautelado a respetiva formação em numero adequado à procura, até à presente data. Desta feita o “troco” em “gansemes” é em número de médicos.

3 em linha! A estratégia da Geringonça é: troco em “gansemes” - no panorama nacional, regional e municipal. Aceitar o troco em “gansemes”, é para si?