Está tudo nos livros

Pouco ou nada do que se conhece agora sobre o homem é realmente novo. Com exceção das modernas tecnologias, o conhecimento humano é antigo. Já quase tudo foi dito e escrito. Está nos livros. Há muito tempo. No entanto, apesar da melhor preparação das novas gerações, apesar de tudo ser ensinado nas escolas e universidades ainda é fácil cair num conto do vigário. Os mais incautos, ingénuos ou fanaticamente crédulos continuam a deixar-se manipular. A política, por muito que sofisticada na sua arte discursiva, avança sem dispensar pitada das lições que repousam nos livros. Nos atos, o diabolismo de Maquiavel. O fascínio dos jogos inexpugnáveis. Não é por acaso a enorme popularidade da série televisiva “A Guerra dos Tronos”. O mestre do antigo príncipe sabia tudo sobre os jogos de supremacia. O maquiavelismo desnuda a força e fragilidade da natureza humana e do homem político na sua relação com o poder. E continua a ser eficaz. Continua a haver aceitação passiva de alguns artistas da vida pública. Não interessam os meios para atingir os fins.

A verdade está naquilo que o povo toma como tal. As sombras na caverna de Platão são tomadas pela realidade até que o homem se liberte e veja a luz do dia. Mas isso pode levar muito, muito tempo. A arte da retórica, fundamental para o sucesso junto das massas, tem uma força inabalável. Está tudo na literatura do padre António Vieira, do século XVII. E há quem tenha lido, estudado e saiba pôr em prática todas essas lições do passado.

António Vieira dizia, como outros na atualidade sabem, que o pregador é o sal da terra. Então o pregador sabe a força que tem junto do público. Sabe a força do seu poder de manipulação dos ouvintes. O padre orador da atualidade também sabe que discursar é semear. Que a semente é a palavra aceite como verdade.  E ninguém como ele conhece todos os peixes da sua paróquia.

Num misto de maquiavelismo e de firme oratória populista até se pode construir uma narrativa inquebrantável para um público reduzido, circunscrito a um espaço determinado, inamovível no seu credo e orgulhoso na sua suposta singularidade. Podemos construir uma narrativa verosímil onde a verdade, nua, pura e crua, fique de fora. Seja manipulada, manuseada, à medida do genial protagonista duma história de martírio e sofrimento bíblico.

Até se pode construir uma crónica digna dum argumento cinematográfico. Basta uns “media” e um público fiel favoráveis. Com personagens notáveis, aventureirismo romântico, mortificação interior do homem dilacerado pela dúvida existencial, a força dos poderosos contra a resistência vitoriosa da plebe, o Bem dos pobres a prevalecer sobre o Mal dos ricos e o final feliz da reconciliação do filho pródigo, feito “enfant terrible” da falência política dos “amanhãs que cantam”.

No fim, tocam os sinos e a festa hoje é do povo. Ou em nome do povo. Tanto faz. Assim como tanto faz ao que aconteceu à verdade. Houve crime? Prevaricação? Ilegalidades? Ilegitimidades? Aproveitamento político indevido? Incompatibilidades?

Agora, tudo depende da narrativa. Da construção artística da realidade. Da crença. Da perspetiva de cada um. Neste como noutros casos a verdade não conta. O que conta é a verosimilhança. Está tudo nos livros. Há muito tempo.