As duas romas, a de São Pedro e a de Santo André

Causou grande satisfação entre a Igreja romana católica e o Patriarcado de Constantinopla a oferta que, este ano, o Papa Francisco regalou ao Patriarca Bartolomeu I da igreja ortodoxa, de um relicário precioso por conter nove pequenos ossos de São Pedro, no dia 29 de junho, dia da festa do apóstolo. As relações fraternas e amistosas entre os dois Patriarcados iniciaram-se com as duas grandes figuras do ecumenismo, o Papa Paulo VI e o Patriarca Atenágoras de Constantinopla. A 30 de novembro, festa do Apóstolo Santo André, o Papa envia uma delegação a Istanbul para honrar o Patrono da cidade.

Historicamente o nome de Constantinopla desapareceu com a tomada pelos turcos, em 1453, da magnífica cidade fundada pelo imperador Constantino.

Este imperador quis que a cidade fosse a Roma do Oriente, e os ortodoxos sentiram-se horados com tal título. Com a tomada da cidade pelos turcos, o imperador e o Patriarca de Moscovo sentiram que deviam apropriar-se deste título e missão histórica de segunda Roma.  O Patriarca do Oriente continuou com a sua missão e título de honra, vivendo em Istanbul numa pequena casa com uma magnífica capela, com um reduzido número de cristãos, mas com grande poder espiritual nos países da Europa oriental. As relações de Roma com Moscovo têm sido sempre difíceis, são melhores com o patriarcado de Constantinopla, cujo nome continua atual só na igreja ortodoxa.

O Papa, nome que tem origem nas primeiras letras de “Pedro Apóstolo Príncipe dos apóstolos”, mostra a relação que o Chefe da Igreja Católica tem com São Pedro, que os ortodoxos não negam, mas afirmam que esse poder espiritual cessou com o martírio e morte do apóstolo. Embora tudo isto pareça uma questão de palavras, na história da Igreja tem um grande peso, Roma é nome que não se pode apagar, está ligado a Pedro e Paulo que, ambos, derramaram o sangue por Jesus Cristo na cidade dos Césares, Roma.

A tomada e destruição parcial de Constantinopla marcou uma das maiores calamidades na história universal. Na noite de 24 de maio de 1453, um eclipse da lua obscureceu o céu durante três longas horas, como aconteceu no dia em que Jesus morreu. No decurso de uma procissão solene o ícone sagrado da Mãe de Deus, escorregou e caiu por terra, uma chuva torrencial alagou a cidade, uma névoa negríssima abateu-se sobre a urbe como nunca fora visto, uma luz começou a brilhar sobre a cúpula da magnífica basílica da Aghia Sopfia (Divina Sabedoria). A 29 de maio de 1453 Constantinopla cai nas mãos dos turcos, o imperador Constantino XII morre no combate e, o seu corpo, não foi mais encontrado. A igreja da Aghia Sophia, conhecida por “o paraíso terrestre, o segundo firmamento, o veículo dos querubins, o Trono da glória de Deus”, foi despojada das joias que recebera durante séculos, pior ainda, foram as pilhagens, as mortes dos escravos, cujos gritos ressoavam dentro dos muros da cidade.  Constantinopla deixou de existir, a extraordinária mistura de soberba ostentação terrena e de humilde fé em Deus, os palácios, os grandes mosteiros, tanto génio ardente, tanta inteligência fulgurante, tudo aquilo que de belo e genial tinha alegrado os corações dos residentes e visitantes, estava destruído para sempre. Os poetas, sem lar nem altar, recordavam as profecias de Jeremias, chorando a destruição do Templo e de Jerusalém:” Aquela que era uma princesa entre os pagãos e uma rainha entre as nações, agora deve servir como escrava”.

Os ecos da destruição da cidade dos sábios e santos, ressuou por todo o mundo conhecido, do Ocidente à Grécia, da Turquia à Rússia. As lamentações em prosa e verso inspiraram os poetas gregos, venezianos, franceses, alemães, eslavos, arménios e talvez de alguns castelhanos e portugueses.

Por causa desta catástrofe a unidade dos cristãos e o ecumenismo ainda sofre, estamos todos a pagar a dívida porque os ortodoxos culpam os ocidentais de não os terem ajudado na defesa da sua cidade. Que as relíquias de São Pedro enviadas pelo Papa Francisco, através do arcebispo Job Telminos, ao Patriarca Bartolomeu I, ajude a pacificar as relações e a aumentar a caridade entre as igrejas orientais.