Difamação, boato e embuste

As três palavras que titulam este texto têm marcado os tempos recentes da actualidade regional.

Começando pela difamação, o próprio código penal define o autor deste crime como “quem, dirigindo-se a terceiro, imputar a outra pessoa, mesmo sob a forma de suspeita, um facto, ou formular sobre ela um juízo, ofensivos da sua honra ou consideração […].”

Refiro-me, naturalmente, a José Manuel Coelho (JMC), recentemente condenado a uma pena de prisão efectiva, que muitos consideraram injusta ou demasiado extensa.

É certo que JMC foi importante no contexto em que surgiu. O seu estilo desbocado e arruaceiro contribuiu para abrir brechas na muralha do “jardinismo”. Foi útil, enquanto aqueles que o inventaram e promoveram tiveram mão nele. Descontrolado, passou a ser um empecilho, um corpo estranho e incómodo, até para os antigos mentores.

Mal aconselhado, persistiu na difamação inconsequente, cujo resultado só poderia ser este.

Não foi condenado por "denunciar os podres do regime", da mesma forma que a sua versão mais recente e radioactiva, Rafael Macedo, não é um herói que diz a "verdade do povo". Ambos foram derrotados pelo próprio ego e pela incontinência verbal. Quem faz acusações sem ter forma de as provar, está a cometer um crime. Vivemos numa sociedade com regras, criadas para defender os nossos direitos.

Aqueles que lamentam este desfecho, pensariam da mesma forma se tivessem sido vítimas de calúnias infundadas?

Espero que JMC cumpra o castigo com saúde e tranquilidade, e que possa regressar à liberdade e até mesmo à vida política, apaziguado com os seus demónios.

O boato é bem pior que a difamação.

Surge de forma anónima, espalhando -se como uma névoa nauseabunda. Não carece de fundamento, basta-lhe a estopa da maldade para se propagar. Mesmo quando aparenta ser totalmente infundado, basta que se lhe acrescente o velho adágio de que “não há fumo sem fogo” para justificar a partilha do vilipêndio.

Vem isto a propósito da participação de Miguel Albuquerque no “Programa da Cristina”. Por muito que algumas elites intelectuais considerem o assunto irrelevante, estamos a falar de um programa televisivo que é líder de audiências, visto em média por mais de 400.000 pessoas, que frequentemente ultrapassa a fasquia do meio milhão de telespectadores. Também é muito visto em diferido, e não apenas por reformados e domésticas. Excertos de cada emissão são partilhados nas redes sociais. Os seus conteúdos são muitas vezes repescados para ajudar a encher páginas de jornais.

Não me choca lá ver Albuquerque a fazer poncha e a tocar piano, como não me chocou ver Assunção Cristas e António Costa a fingir que sabem cozinhar.

É claro que nestes programas não há revelações nem desabafos espontâneos, pelo que levantar a questão da sua alegada não- toxicodependência é estrategicamente brilhante. Nada melhor do que pegar neste enorme "elefante no meio da sala" e apresentá-lo como uma abominável ignomínia, incompatível com um pai e avô que continua a praticar o seu jogging matinal.

Aliás, a sua eventual toxicodependência só me interessa na medida em que, se fosse comprovada, não o recomendaria para o cargo que ocupa. Trazer à tona este tabu não mata o boato, mas descredibiliza-o. Por outro lado, legitima as referências públicas ao tema, mas não deixa de ser um golpe de rins... cirúrgico.

O embuste… fica por vossa conta, que eu já não tenho espaço para mais. Pesquisem a definição e escolham o alvo que, na vossa opinião, melhor se lhe adequa. Candidatos não faltam…