Será que lemos menos hoje?

Penso que hoje se compra mais livros do que alguma vez se comprou, apesar de talvez não tantos quantos os editores almejariam.

Para eles o sonho seria, decerto, que os livros conquistassem as massas como sucede com outras atividades como o desporto ou a música, às quais recorrem, aliás, para atrair o público até onde estão os livros, como vemos nas feiras do livro. As pessoas vão para ouvir a banda ou o cantor e, já que lá estão, talvez comprem um livro. Apostam também na presença de escritores com quem organizam conversas, nem sempre interessantes, sobre minúcias das suas vidas e processo criativo em vez de lhes permitirem falar sobre a temática da sua obra, ler excertos dela, de forma a encantarem os presentes e a fazê-los sentir uma vontade irresistível de entrar no quiosque e levar o livro para casa. Com os olhos no futuro, insistem no incitamento à leitura junto das crianças, esperando que ganhem o gosto e o cultivem pela vida fora, o que, como se verifica não tem acontecido. Talvez não fosse despiciendo perpetuar esses esforços junto dos mais crescidos, pois o ser humano não perde o gosto pelo encantamento de uma história, qualquer que seja a sua idade. Num encontro de ‘Leitura em voz alta’, ouvi de Rodolfo Castro, escritor e contador de histórias, como uma livraria começou a atrair clientela com sessões de leitura à porta da loja, aos domingos pela manhã. No primeiro dia, os passantes estranharam e muito poucos se demoraram a ouvir. Contudo, de domingo em domingo, o público foi crescendo até às centenas e muitos passaram a entrar na livraria em busca do volume desejado.
Sendo a população atual mais culta e informada do que alguma vez foi na história do país, seria legítimo esperar que mais indivíduos encontrassem deleite na leitura, em geral, e na literatura em particular. A resposta para que tal não aconteça estará, por ventura, na noção de divertimento que se instalou entre nós.
O ato de ler, isolado e silencioso, em recato, num diálogo inaudível entre as ideias impressas e as que vão ecoando na cabeça do leitor, modeladas pelas suas vivências, pela sua reflexão e análise é coisa que não se coaduna com os ideais de uma sociedade em que tudo é ruído, tudo se exige rápido, em perpétuo movimento e com garantia de diversão, tanto melhor se partilhada em convívio animado. Proliferam os espetáculos ao ar livre, aos quais se vai não para ouvir mas para cantar, gritar, pular; o visionamento das competições desportivas veio para as ruas, onde hordas, adornadas de cachecol a condizer com as preferências clubísticas, exibem alegrias e prantos. As nossas casas deixaram de ser lugares para os silêncios e para as vozes dos que nelas habitam. Substituíram-nas as vozes de estranhos televisivos, mas tão familiares, que dominam todo ambiente com afirmações do que é certo e errado para que não tenhamos que pensar. Em ecrãs palpitantes, intercalam-se drama e comédia, obnubilando-nos num cómodo entorpecimento de espírito. Enfastiados, trocamos de ecrã ou, talvez nem isso, dividimos a atenção entre dois e vamos mantendo conversa com quem está longe, seguindo outras realidades que invadem o nosso espaço ao segundo. Temos pressa e queremos tudo o que potencie a vertigem da diversão ininterrupta, a fuga do vazio.
Ler requer tempo e silêncio, tal como os requer a escrita. E é entre o vagar e quietude desses dois atos, intrínsecos e exclusivos do ser humano, que se enovelam os registos de todas as verdades que perpetuam cada época da história da humanidade e deste planeta que a acolhe. Por isso, mesmo que não galvanize as massas, um livro nunca será em vão, porque, em algum tempo e em algum lugar, encontrará um leitor que lhe insufle a vida.