O poder do compromisso

"O melhor meio para iniciar uma política é baseá-la na confiança."
Konrad Adenhauer

Após a Segunda Grande Guerra seis países uniram-se para criar um projeto de integração europeia assente nos princípios de paz, liberdade, democracia, igualdade, justiça, solidariedade, fraternidade e respeito mútuo. Uma União entre países sem precedentes na história da Europa. Nessa altura, o "sonho europeu" de Adenauer, Schuman e Monnet era uma promessa de paz, a esperança de um futuro melhor, sem violência, sem guerras. Poucos acreditaram neste "sonho". Mas o sonho tornou-se realidade. Em 1951, em Paris, seis países (Alemanha, França, Itália, Países Baixos e Luxemburgo) assinaram o Tratado que institui a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço e instituíram o primeiro Parlamento Europeu, que contava com 78 parlamentares. Um feito inigualável na história. Sem vencedores, nem vencidos, a grande evidência do projeto europeu estava ali: a consolidação de um compromisso pela defesa da paz e da liberdade. Pela primeira vez na história da Europa, os Estados-Membros cederam parte da sua soberania nacional às instituições comunitárias por um "bem maior".
O projeto de integração europeia concretizou a esperança pela paz depois de décadas de nacionalismos e extremismos desenfreados que culminaram em duas Grandes Guerras. É preciso não esquecer o passado. Se a Europa continuar a ceder a populismos e demagogias, a promessa de paz feita outrora poderá estar em risco. O preço da cedência a populismos pode ser demasiado alto, lembre-se disso.
Sim, "esta Europa" é melhor do que a de antigamente. Mas "nesta" Europa, cada vez mais, há desafios que podem colocar em causa o projeto europeu. Sabia que o Parlamento Europeu é a única instituição europeia eleita diretamente pelos cidadãos? Estão eleitos os representantes nacionais para o Parlamento Europeu para o mandato 2019-2024.
Neste "novo" Parlamento, a extrema-direita de Marine Le Pen mantém-se sentada enquanto toca o Hino Europeu (hino que representa todos os princípios fundamentais pelos quais se regem os Estados-Membros). Na mesma altura, o partido de Nigel Farage (o "partido do Brexit") vira costas (literalmente) ao plenário – a mensagem, claramente, é a de quem está de costas voltadas à Europa.
Os novos eleitos representam não só a vontade dos seus cidadãos, é certo, mas também a revolta de cada um deles. Ainda assim, é chocante que se confunda o respeito pelos pares e pelas instituições com questões políticas nacionais – uma coisa é discordar, outra coisa é desrespeitar.
Dei estes dois exemplos porque me parecem importantes para demonstrar a necessidade de lutar contra este tipo de políticos (populistas, demagogos, radicais) que demasiadas vezes substituem factos por calúnias, por injúrias ou, simplesmente, pela versão dos factos que lhes trouxer mais votos. Na política não pode haver lugar para projetos pessoais de conquista do poder. Precisamos de seriedade, motivação e compromisso. Isso significa respeitar os princípios e valores que criaram a União Europeia.
David-Maria Sassoli é o novo Presidente do Parlamento Europeu. No seu discurso de vitória referiu precisamente a necessidade de "recuperar o espírito dos fundadores, daqueles que souberam pôr de parte as inimizades da guerra e criaram um projeto capaz de congregar a paz, a democracia e a igualdade." Sejamos capazes de defender uma Europa integrada, democrática, inclusiva, tolerante e livre, para além do período de campanha eleitoral.