Diz-me afinal quem tu és!

“Remador de altas marés,
Frase suspensa no mundo,
Português do mais profundo
Diz-me afinal quem tu és!”
Ilha que é Gente, Irene Lucília

Este ano celebram-se 600 anos do Descobrimento da Madeira. Ou do Achamento. Ou da chegada dos portugueses. Ou da colonização. O que interessa é que foram 600 anos a enfrentar a fúria dos elementos; a desbravar a “montanha agreste”; a conquistar a nossa emancipação.
Ao longo destes anos, da miscelânea étnica e cultural que foi colonizando a Madeira, emergiu um povo intrépido, bravo e trabalhador, que não se resignou à humilde condição a que estaria votado e, nesta terra e além-mar, ousou desafiar o seu destino, deixando um legado em crescimento às gerações futuras.
Fruto desse traço genético diverso, prenhe de ousadia e coragem, que herdámos dos nossos avós, construímos uma sociedade global e multicultural. Porque é uma sociedade que não se faz apenas com aqueles que cá estão, nem se faz de um só sangue. Faz-se também com sangue de outras paragens e de todos aqueles que noutras paragens se fixaram, deixando cá o seu coração.
Celebramos, portanto, 600 anos. Mas não são 600 anos de apenas terra e mar.  São 600 anos de pessoas e das suas conquistas. 600 anos de história e de estórias que talharam um povo, um espírito e uma cultura.
Foi a este aniversário que o Presidente da República não se quis associar. Diz que para não se envolver nos processos eleitorais em curso. Como se os portalegrenses não votassem, também este ano, para as Legislativas Nacionais. Com certeza seguindo o mesmo raciocínio, de que em ano de eleições não se homenageiam povos ou a própria história nacional, também optou por ir celebrar o Dia de Portugal para Cabo Verde. Não quis vir à Madeira, mas poderia estar com Madeirenses na África do Sul, na Austrália, na Venezuela, no Reino Unido, no Canadá. Poderia homenagear o Povo Madeirense e a sua Diáspora. Não, a opção do Presidente da República, em ano de aniversário de data redonda para a Madeira e para os Madeirenses, não passou por nós.
Mas não faz mal. O povo madeirense não precisa de figuras tutelares nem a nossa história requer paternalismos. Ao longo destes 600 anos temos mostrado ser capazes de nos valer a nós próprios.
Como costumamos dizer, só faz falta quem cá está. Ou quem quer cá estar!

PS - Miguel Albuquerque assumiu esta semana que os boatos sobre a alegada toxicodependência causaram dor à sua família. Fez bem em falar disso, para que se perceba que as pessoas que estão na vida pública também têm pais, mães, filhos e netos. Que são pessoas de carne e osso, como nós.
Mas fez bem em esclarecer, igualmente, a proveniência do boato e as razões para a sua disseminação. A calúnia e a difamação visam arrasar a sua imagem como homem e como político. Desacreditá-lo. Amesquinhá-lo. “Revelar” uma alegada falha de carácter. Esta campanha negra, miserável e ordinária, tem um fim político bem preciso.
Desunhem-se como entenderem, mas a verdade é que o boato ganhou nova relevância, nos últimos meses, devido às eleições regionais que se aproximam. Porque um dos lados dessa refrega eleitoral acredita que a difamação é uma arma política. Ora, denunciar publicamente este tipo de campanha negra feita sob a cobardia do anonimato é fundamental para a higiene do espaço público e do debate político. Não deveria ser necessário, mas é. E por isso, fez muito bem Miguel Albuquerque. Bravo!