Cheira a norte

Os cheiros despertam-nos memórias, fazem-nos recuar no tempo como se estivéssemos a reviver aquele momento passado. Certos cheiros marcam-nos para a vida.

Os cheiros são tantos e variados, uns bons, que nos enchem o coração, outros nem por isso, mas que nos marcam na mesma.
Dos bons vem-me logo à memória aqueles que nos ligam à família, à nossa infância, ao meio que nos rodeia.
Lembro-me como se fosse hoje, do aroma a café espalhado pela casa, acabado de ser feito pela minha mãe. Era adquirido na mercearia mais ou menos nestas proporções: 100 gr de café do bom com 500 gr de cevadinha. Uma mistura única, com um aroma intenso. Até o cheiro do café em pó já era bom.
O cheiro do pão caseiro é outra das lembranças que não se esquece. Desde o fumo até ao pão quente a sair do forno, ou até com a manteiga a derreter no seu interior. Uma delícia. Sem esquecer os cheiros dos cozinhados da minha mãe, aquela mistura de especiarias, colorau, carne de porco salgada, o aroma fazia-me crescer água na boca. 
A casa de colmo onde vivia tinha um cheiro característico das casas típicas de Santana, cheirava a palha. Palha que também era usada nas camas onde se dormia. Esse cheiro também não se esquece. Bem como o cheiro a petróleo do candeeiro, nas noites em que a eletricidade faltava. Ou da cera esfregada no soalho da casa.
E quando se fala de cheiros, a minha memória olfativa, leva-me de volta ao cheiro do sabão azul e de forma mais fina ao do inebriante cheiro do sabonete a musgo.  Havia sempre um na pia para lavar as mãos. Naquela altura, era o sabonete mais vendido na mercearia. Um luxo.
Sempre que vou a Santana, sou invadido por cheiros que matam saudades. O cheiro a terra molhada, depois da chuva, o aroma das flores do campo, o cheiro da fruta fresca, das ervas aromáticas, do loureiro, do alecrim, até o próprio sabor da água da fonte é diferente. 
Se fecharmos os olhos e pensarmos nos cheiros que nos trazem boas recordações, que nos invadem de saudade, eles vêm logo ao nariz.
Mais havia, ainda outros cheiros menos agradáveis, mas que no entanto, não deixam de estar presentes nas minhas recordações.
Antigamente no meio rural as casas de banho eram em muitos casos improvisadas. Escusado será lembrar os cheiros que daí vinham.
Dentro de casa, o bacio ou penico também libertava os seus odores característicos. Utilizados à noite e despejados de manhã.
Nas zonas rurais inevitável é também o cheiro que vinha do palheiro ou do chiqueiro. O estrume ia-se acumulando para dar lugar a fertilizante usado na fazenda. Cheiros que em jeito de brincadeira havia quem lhe chamasse a “maresia do campo”.
Na própria gastronomia havia cheiros que de agradável tinham muito pouco, mas que proporcionavam iguarias bem saborosas, refiro-me a uma boa sopa de tripas de porco.
Se fecharmos os olhos e pensarmos nos cheiros que nos trazem boas recordações, que nos invadem de saudade, ficamos com a certeza de que eles estão sempre presentes e que nunca os esqueceremos, até o cheiro do próprio tempo.