Integração social e saúde mental

As Nações Unidas (ONU) publicaram recentemente um relatório sobre o direito de todos a terem os melhores padrões possíveis de saúde física e mental (“Right of everyone to the enjoyment of the highest attainable standard of physical and mental health”). Muito pela entrevista do seu autor (Dainius Pūras) ao The Guardian, que destacou ainda mais este assunto, o relatório veio recordar que a saúde mental não corresponde apenas à ausência de doença, que tem determinantes sociais e que, portanto, isso tem de ser considerado nas políticas públicas e na intervenção profissional. 

Com efeito, sabemos que “ter” saúde mental não significa apenas “não ter” uma doença. A saúde mental define-se pela possibilidade de cada pessoa viver uma vida digna, em que consiga lidar com os desafios do seu desenvolvimento, cumpra o seu potencial e contribua e se sinta integrada na comunidade. E sabemos também que a nossa saúde mental é determinada por muitos fatores - não é apenas uma questão de tratamento e reabilitação levada a cabo pelos serviços de saúde, mas remete para o que acontece no plano familiar, escolar, social e comunitário e nos locais de trabalho. Por isso, tal como a ONU refere, a melhor forma de investir em saúde mental é também investir nestes vários contextos de vida das pessoas.
Naturalmente que os serviços dedicados ao tratamento e à recuperação são essenciais e cada vez mais necessários. Mas uma intervenção que esteja somente focada no nível individual e para pessoas com diagnóstico será sempre limitada, e irá criar pressão sobre os serviços e sobre os profissionais, os quais acabam por ficar também em risco de stress e burnout. Nunca haverá tempo nem recursos humanos e materiais suficientes para resolver os problemas, se a prioridade não for a prevenção. 
Apesar de esta perspetiva ser aceite por múltiplas instituições, o relatório da ONU é ainda mais explícito e enfático em assinalar que é central para a saúde mental e para o bem estar dos cidadãos uma ação ao nível dos seus determinantes, por exemplo, nas políticas sociais e comunitárias, de educação, fiscais, laborais e de emprego. Não admira por isso que seja reafirmada a importância de uma ação transetorial e integrada para a promoção da saúde mental, numa lógica de governação como um todo e com definição do papel dos vários setores. São também intervenções significativas em saúde mental as políticas de inclusão social e anti-violência e anti-discriminação, de apoio às famílias, de intervenção precoce na infância, de intervenção em contexto escolar (como a prevenção do bullying, as competências sociais e a gestão de carreira) ou ainda de incentivo ao bem estar nos locais de trabalho e prevenção da insegurança laboral, incluindo a avaliação e gestão dos riscos psicossociais.
No mundo que conhecemos, a promoção da saúde mental e do bem estar é um dos grandes desafios que temos pela frente, quer a nível individual, quer no plano social. Se queremos ser bem sucedidos como comunidade, é essencial colocarmos em prática as ações que melhor respondem às necessidades, quer pelo seu foco, quer pela sua eficácia e eficiência. A boa notícia é que, muito antes das pessoas precisarem de chegar ao gabinete no sistema de saúde com sinais e sintomas, já muito se faz e sobretudo se pode fazer na promoção da sua saúde mental e do bem estar.