Foi até ao fim?

Trouxeste-me tantas outras coisas, como este saber fundo de que há encontros na vida que têm a capacidade de fazerem com que os dias passem a ter uma singular temperatura. Talvez um frio permanente ou uma cor que não se sabe bem o que reflete. Não será luz, com certeza. Daí o desacerto de dizer.
Como escrever no escuro?
Como escrever no medo?
Como escrever no fim?
Trouxeste-me, talvez, esta nova forma de pisar o chão. Uma respiração rente à terra e à água.
Talvez te tenha respirado no pó de ti. Talvez tenha absorvido qualquer coisa que de tão humana escapa a todas as designações ou significados. Uma vida fora dos dicionários, ou apenas do seu sentido literal.
Sei que sou hoje uma coisa indizível, a viver num espaço de tempo suspenso pelo ar que rodeia tudo em apneia violenta. Aprender a respirar. Aprender a andar. Aprender a viver por dentro. Aprender a percorrer por fora. Aprender, reaprender, desaprender. Aprender o fim.
Até os sonhos se alteraram. Procuram uma forma, uma casa onde habitar, um corpo que desfoca, uma pergunta repetida. Foi até ao fim? Uma resposta reiterada: até ao fim.
E, ainda assim, a geografia mistura-se. Tento agarrar o mapa, mas ele é transitório. Faz-me regressar em sonhos a uma das casas de infância. Aquele lugar agora alterado pelo tempo. Foram-se as laranjeiras, foram-se as pedras pequenas da calçada, foram-se os meus passos em redor do jardim. Foram-se os meus pensamentos. Mas é para lá que volto. É lá que te questiono, uma e outra vez: foi até ao fim? É lá que me respondes, reiteradamente: foi até ao fim.
Mas não há como saber fora do sonho, não há como saber fora da casa. Não há, sobretudo, como saber esse fim.
Situar o início do fim num dia, numa hora, numa luz que entrava pela janela, num som que se movia, num abraço que se desenhava por detrás da consciência. Assim num plano inclinado como se não houvesse forma de manter o equilíbrio. Era só mais um degrau, mais uma volta, mais um arrepio, mais uma vertigem. Até só ficar mesmo isso: uma vertigem em uníssono com a respiração que cessa bruscamente por entre as minhas mãos.
Não há já palavras que sejam capazes de um enunciado percetível e muito menos feliz. Só há esta sensação de que não se sabe dizer, de que nunca se saberá dizer o que de mais profundo se acha por dentro do que fica depois do fim.
Lembro-me de que na casa, que agora regressa nos sonhos, tentava imaginar, no correr da noite, como seria o nada. E imaginava nuvens e nevoeiro.
Aprendo agora que o nada pode ter tudo como antes, e apenas lhe faltar algo, ou lhe faltar tudo. Não é preciso o nada para ficar sem nada. Não é preciso o tudo para faltar tudo. É só preciso assentar o coração uma vez na certeza de uma totalidade, para depois ficar com o coração à banda como se não houvesse chão.
Não é preciso muito para chegar aqui. Ao fim. À pergunta: foi até ao fim? E à resposta reiterada nos sonhos que habitam a casa da infância: foi até ao fim.