Era uma vez...

É desta forma que se iniciam as histórias infantis! É assim neste mundo repleto de príncipes e princesas, fadas e super-heróis, mas também de lobos maus e dragões que as crianças aprendem a lidar com os sentimentos e emoções, conhecem a importância das regras e do respeito por si e pelos outros, aprendem que os perigos existem, superam obstáculos, aceitam desafios, todos eles importantes para um crescimento emocional saudável.
Normalmente as histórias infantis terminam com um final feliz mas no mundo dos comportamentos aditivos e das dependências (CAD) as histórias são reais e dificilmente têm finais felizes. Quem trabalha com os CAD e acompanha jovens, sabe que não é por acaso que os primeiros consumos acontecem, nem tão pouco é por acaso, por vezes, perduram no tempo. Num ápice passaram-se anos. Começa numa festa aqui, num fim de semana ali, só nas férias, só hoje, todos os dias. É neste mundo, agora real, que os sentimentos são camuflados, os medos são guardados, os sonhos destruídos e onde só se ganha uma expectável vontade para não viver, apenas sobreviver.
Saliento que estes jovens não são de todo a maioria. Alguns falam connosco abertamente e relatam-nos que já estão muito envolvidos com o consumo de cannabis e se juntarmos a este facto, o aumento da toxicidade da própria substância, e com ela, todas as consequências a curto, médio e a longo prazo associadas a um consumo regular, como por exemplo: o isolamento, a agressividade, as falhas de memória, os ataques de pânico, a ansiedade, os surtos psicóticos, a esquizofrenia, entre outros, estamos a falar de um assunto muito sério que um dia começou como uma brincadeira, ou como alguns jovens nos transmitem: “Foi naquela, só para experimentar”.
Não obstante todo o trabalho de promoção da literacia em saúde realizado nos mais variados contextos e considerando sempre as diferentes fases do ciclo de vida do ser humano, no sentido da promoção de competências pessoais e sociais e da adoção de hábitos de vida saudável, é importante continuar a intervir. E como prevenir é agir antes de acontecer é importante investirmos cada vez mais cedo.
Mas como? A resposta está claramente na família! É a família que continua a ser o alicerce fundamental da sociedade, porque é no seio da família que as crianças se formam e se desenvolvem enquanto seres humanos.
Antes de mais há duas questões que devem ser tidas em conta e que revelam ser os dois pilares essenciais para uma dinâmica familiar coesa e equilibrada no relacionamento entre pais e filhos: proximidade afetiva e limites bem definidos.
A proximidade afetiva define-se, por um lado, pela capacidade que os pais demonstram em assumir a responsabilidade pelo bem-estar e, por outro, pela capacidade em cooperar com os filhos ao longo do seu desenvolvimento no sentido de dar resposta às suas necessidades de forma coerente, ajustada e assertiva.
Já na adolescência a questão dos limites ganha importância pois quando os limites não ocorrem na família o jovem vai deparar-se com outros limites: os limites legais, decorrentes do ato ilícito de consumir ou ter na sua posse substância ilícita para consumo, ou com os seus próprios limites, associados às consequências do consumo ao nível da sua saúde física e mental.
Cabe a cada um a responsabilidade de escolher o final da sua história.