O “Golden Gate” e a História da Madeira

Muitos limitam-se a referenciar o Café e o ex-hotel "Golden Gate" como a "esquina do mundo", tal como Ferreira de Castro chamou no então auge do trânsito de navios de passageiros pela Madeira, ali se encontrando viajantes dos mais e tantos diferentes lugares.
Ora, o "Golden" é mais do que isso.
Foi na sua "sala do Centenário", com a cumplicidade do seu director Manuel Marcos dos Santos, onde foi redigido o Manifesto ao Povo Madeirense contra o "decreto da fome" em que Lisboa instituía uma subida insuportável no preço da farinha.
Antes, levantamento de dinheiro nos Bancos madeirenses e boatos fomentados por rivais financeiros ingleses no ramo, haviam originado uma corrida e a falência dessas casas bancárias, que ao poder central convinha que desaparecessem.
A generalização da revolta do Povo Madeirense com tanta injustiça e destroço da Economia regional, produz uma greve geral a 3 de Fevereiro de 1931.
As Forças Militares são chamadas a reforçar a Polícia, morrem dois cidadãos nos confrontos, um Leiteiro e um Agente da PSP.
Lisboa perde o controlo da situação, pois, no "Golden", os Oficiais da Guarnição Militar confraternizavam amigavelmente, alheios às suas diferentes convicções políticas.
Então, para ganhar tempo, a 6 de Fevereiro o Governo Central finge suspender o "decreto da fome" e envia tropas para a Madeira com intuitos repressivos.
Resultado das reuniões do "Golden Gate", Oficiais deportados e aí hospedados, Oficiais e Políticos madeirenses (entre os quais o Dr. Vasco Gonçalves Marques e o Dr. Vieira de Castro, director do "Jornal da Madeira"), a 4 de Abril de 1931 é desencadeada a Revolução da Madeira.
Durante quase um mês - a mais longa revolução contra Salazar e com o maior impacto internacional num mundo pré-II Guerra Mundial - Lisboa não exerce quaisquer poderes soberanos no arquipélago.
É a partir do "Golden Gate" que o Capitão Frazão Sardinha faz os telefonemas que nesse dia despoletaram a Revolta da Madeira.
Guardam-se armas no hotel.
Nos Açores a revolução falha, pois a população, dócil a Lisboa, não  apoia, pelo que os Oficiais têm alguns deles de se retirar para Madeira, onde também alojados no "Golden" reforçam os revoltosos madeirenses.
Apesar de numa atitude velhaca sem precedentes, os oficiais do navio inglês "London" terem entregue os revoltosos nele refugiados, às forças do regime de Lisboa, são ainda do Hotel "Golden Gate" a logística e os disfarces que permitem a fuga para Canárias dos capitães Sardinha e Vilhena.
Os anos correram.
Em 1974, Maio, também no "Golden Gate" são feitas as primeiras abordagens pessoais que levam à fundação da Frente Centrista da Madeira no escritório do Dr. Henrique Pontes Leça, organização depois transformada em PPD da Madeira.
1974 e 1975 são anos de resistência ao fascismo comunista, onde o "Golden Gate" é um local importantíssimo no desenho das estratégias que levam às conquistas da Democracia e da Autonomia. O "Apolo" era o Café preferido da impropriamente autodenominada "esquerda", esta também aí, em minoria.
Recordo ainda que o então Secretário-Geral do PPD madeirense, o saudoso António Gil Silva, combinava comigo muito da vida do Partido, às mesas do "Golden", antes de 1978, e quando se tratava de algo mais complexo, por exemplo escolha de pessoas, nada como um inspirador passeio ao cais.
Razão porque, também no "Golden", sexta-feira 12 de Julho, com muito prazer continuarei a integrar um evento ao âmbito dos Seiscentos Anos de Colonização da Madeira, criado pela pintora Professora Margarida Jardim de Freitas. Com exposição de quadros Desta sobre as Revoltas e Motins no arquipélago, enquadrada numa intervenção cénica de Eduardo Luíz e de Filipe Luz do Teatro Experimental do Funchal, e que termina com uma Tertúlia enquanto as pessoas jantam, participada pelo Dr. Guilherme Silva, pelo Dr. Marcelino de Castro, Director da Revista "Islenha", pelo Historiador Dr. Emanuel Janes e por mim próprio.
Aliás, este evento ocorreu já no mês passado em São Vicente, estando previsto Porto Santo em Outubro e Ribeira Brava em Novembro.