Matilde no país das maravilhas

Olá Matilde. Escrevo-te na esperança de que um dia me consigas ler. Seria um duplo óptimo sinal. Estarias crescida e completamente capaz. E eu chegaria até ti, como desejo.
Porquê esta necessidade de me dirigir a ti? Por uma simples razão. Para te pedir que não fiques com má impressão nossa. Aposto que os teus pais já te pediram desculpa. Não por te terem trazido ao mundo, mas por te terem feito nascer em Portugal!
Sabes? Este país não é para ti. Eu nem sei bem para quem é (embora desconfie)... Não é para velhos, já sabíamos. Não é para jovens, já temos vindo a perceber. Não é para trabalhadores, já se verificou. Tu vieste, mais uma vez, confirmar que também não é para doentes.
Aqui, os doentes não têm vida fácil. Aqui, os doentes demoram a ser tratados. Aqui, alguns nem de médico dispõem. Aqui, esperam-se anos por cirurgias. Aqui, às vezes morre-se à espera.
No entanto, mesmo aqui, tu tiveste sorte. Porque nem tudo é mau neste bocado de terra mal frequentado. A tua sorte foi não dependeres de quem governa, uma vez que não és familiar de nenhum deles. Socorreste-te de quem se sentiu tocado pela tua luta. Uns com mais. Outros com menos. Todos com o que era seu! E do pouco se fez muito, chegando até a superar a quantia inicialmente “pedida”. Já vieram garantir que os donativos não serão tributados (acredita que lhes passou pela cabeça, mas era mau demais), porém se ousassem fazê-lo não duvides que não seria por aí que não irias ter capacidade para chegar ao medicamento de que precisas para te agarrar à vida.
Mas como tu, minha querida, muitos houve que precisaram de ajuda e não a tiveram. Partiram. Muitos há que continuam a apelar ao nosso auxílio. Alguns pequeninos. Outros nem tanto. Mas a necessidade não tem idade, a não ser na própria composição da palavra.
Eu juro que preferia mil vezes ver um país a assegurar a saúde dos seus contribuintes. Mas eles insistem em garantir a liquidez de bancos, injectar milhões em empresas públicas falidas, comprar submarinos, construir auto estradas onde quase não passam carros ou marinas onde não param barcos, comprar obras de arte. Olha, teimam em olhar pela sua “saúde” em vez da tua/nossa!
Tem paciência. Vais ter que ser forte. Tens agora uma difícil batalha pela frente, mas tens muita gente a olhar por ti. A chamar-te de especial e a querer ver-te crescer.
Agora um aparte. Como pai, fico sempre mais sensível a estes assuntos e corri a perguntar ao pediatra dos meus filhos, por curiosidade, como se desconfia destes casos. Respondeu-me que um dos sinais é dado quando se dá um aperto de mão à mãe. Se ela tiver dificuldade em largar a mão, a/o bebé pode ser portador da doença. Juro que é verdade. Fiz questão de esclarecer que o diagnóstico não pode ser tão leviano e um cumprimento mais demorado pode ser apenas um pedido de uma terapêutica alternativa, principalmente se se fizer acompanhar de um piscar de olhos ímpar e um humedecer de lábios com a língua. Concordou. Conhecimento científico é com ele. Escola da vida, comigo.
Presumo que, de hoje em diante, as saudações serão ao estilo das “quentes”. Toca e foge. É mais seguro.