Havia um corpo parado no medo

Do silêncio à estrada, uma flor em forma de gato. Ou a tua mão gasta sobre o ventre de antes. Aparição marinha embargada na noite que não chega. Um silvo muito áspero a escavar-me o ouvido até casa. Até à pele que o osso perfura na ânsia de ser carne viva, alcateia acesa de dentes famintos, prontos a rasgar um e outro corpo. Até aos olhos encravados na garganta de um pássaro brando.
Para onde se dirige agora a tua face, que língua devorará a sombra inacabada do teu ombro, que eu guardava aflita na minha boca de terra batida? Sabes, a minha pele já se fez osso no focinho do cão e a vida corre aguada por fora das minhas veias doridas. Extensas veias de alcatrão sem lapso para recomeçar. Os cães vêm em bando lamber-me as pernas que se dobram à escuridão de um lugar vago. Este vácuo. É o abandono, creio; ou então a tua mão já sem o peso todo daquela infernal ternura, onde eu, ferida de sono, ia recolher-me na esperança de um suor paliativo. Cura mortífera para a última haste do meu corpo. Esta. Escondo-a sob a poalha do céu aberto, acreditando no pêlo do gato de encontro aos meus dedos. Invento-o à face dos anjos caídos sobre as primeiras árvores, e canto para dentro dos seus olhos abruptos. Lagos gelados que nenhum calor corrompe.
A boca não basta para uma canção; ainda que a canção possa, por vezes, ser tudo. Nada. Sobretudo agora, que a nudez corta o caule da flor e os nossos corpos se tingem do seu sangue em brasa. Vês? Vês-me daí? Eu sei. Somos a irreversível queimadura da floresta, as unhas raspadas pelas feras sobreviventes que ultrapassam as árvores. Que nos ultrapassam. Estamos mais quietos do que as árvores.
O medo.
Enquanto não chegas, caem as noites mais escuras e os dias são gritos brancos mordendo-me a pele. Adormeço depois. Quanto mais se aproximam as tuas mãos, quanto mais brilha no escuro a tua nuca tão certa, mais se abre ao meio o peito onde me nasceste. E mais desato a perder-te.
Depressa! Não vês? O sol não nos queima por pouco. Em labaredas de soro, vem sentar-se sobre as nossas cabeças como um rei gordo no trono. E, não tarda, desce mais fundo para arrancar-nos o coração pela goela, todo ele armado das suas fracas e imensas mãos. Doem-me já as suas unhas de fogo claríssimo, sinto-as entrar no meu corpo de adolescente morta.
Ao longe, a floresta. Havia um corpo parado no medo. E depois dele, a descida da pedra partindo o lago.
Morro. É por um fio que morro.