Quando a meditação ajuda a (sobre) viver

No ano passado, mais precisamente entre os dias 23 de junho e 10 de julho, o mundo uniu-se numa missão quase impossível, naquela que foi considerada uma das operações de resgate mais difícil da História. Uma equipa de futebol, constituída por doze rapazes e o seu treinador, ficou aprisionada no complexo de grutas de Tham Luang Nang Non, na província de Chiang Rai, no norte da Tailândia.
Milagrosamente, este grupo sobreviveu nove dias, em condições físicas e psicológicas extremas (sem água, sem alimentos, na escuridão total, com escassez de oxigénio, a baixas temperaturas e enclausurado), desconhecendo se seria salvo. Alguém consegue imaginar um contexto de maior inquietude e vulnerabilidade do que este?
Para surpresa de todos, os mergulhadores britânicos encontraram os rapazes sentados, calmos e a meditar. Consta que Ekapol Chanhtawong, o treinador de 25 anos e ex-monge budista, ensinou a prática milenar da meditação à sua equipa, e que este exercício foi fundamental para manter a serenidade (numa circunstância emocionalmente complexa de gerir) e para conservar energia. Dominar a mente e permanecer tranquilo traduz-se fisiologicamente na diminuição da frequência cardíaca e respiratória, com reduzido gasto calórico e energético.
A meditação tem sido uma ferramenta usada no treino da mente há milhares de anos, e está ancorada nas práticas contemplativas do Budismo. Existem várias técnicas meditativas, muitas isentas de objetivos religiosos e dirigidas para a promoção do bem-estar físico, mental e espiritual. A nível académico, a meditação é classificada consoante o tipo de abordagem. Princípios comuns a todas são: facilitar a monitorização e a regulação da atenção e das emoções e o desenvolvimento destas capacidades através da prática regular. Alguns tipos de meditação são: taoísta, transcendental, tântrica, mindfulness, compaixão, bondade amorosa, etc.
A frequência destas práticas tem crescido no mundo ocidental. A título de exemplo, a meditação Mindfulness, ou atenção plena, tem sido amplamente divulgada nas redes sociais e na comunicação social. É uma técnica que foca a atenção no momento presente. Quando as nossas inquietações advêm da ruminação mental sobre acontecimentos passados ou expectativas em relação ao futuro, o Mindfulness ensina-nos a arte de viver no presente.
Seja qual for o tipo de meditação praticado, os benefícios são imensos. Neste caso específico dos rapazes da Tailândia, a meditação orientada pelo treinador foi um fator protetor, contentor e de resiliência. Evitou o desespero total, e um potencial desfecho trágico, que uma situação desta natureza poderia ter propiciado.
Esta história de sobrevivência é também um exemplo de esperança nos valores da Humanidade. Quando queremos, a “união faz a força”! Juntos, conseguimos manifestar milagres, transcendendo condições inimagináveis. Para estas crianças e para o seu treinador, esta experiência limite transformou-os, mas acreditaram, sempre, que “até mesmo a noite mais escura vai terminar e o sol aparecerá no horizonte” (Victor Hugo, 1802-1885).