Ser humano

Imagino que a escrita tenha sido, em tempos, libertadora. Lançadas ao mundo, as palavras iriam em paz, sabendo que não dizem tudo o que queremos nem tudo o que o outro é capaz de captar.

Hoje, ela escraviza-nos. Escrever é esperar validação. Como se nada tivesse valor por si. Mas tem: há palavras que nos expressam, pessoal e coletivamente, e que ultrapassam a ditadura do momento.
Nietzsche defendia que o ser humano se distinguia radicalmente da abelha: “esta constrói com a cera, que recolhe da natureza; ele com a matéria bem mais frágil dos conceitos, que apenas deve fabricar a partir dele próprio”. A mim, parece-me certo que alguns de nós são como as abelhas: vão de flor em flor, para depois produzirem mel; outros são como as aranhas: criam a teia desde o seu interior.
Muitas vezes, são as palavras dos outros que nos revelam – nos momentos de raiva, de celebração, de protesto, de alegria, de esperança ou de desilusão. De festa e de dor, essa mesma que, como muitas vezes aprendemos, pode ser um sinal de que a vida ainda está em nós, que não se quer deixar eliminar, lutando contras as adversidades, chamando-nos para essa luta.
Desde dentro ou voando de flor em flor, é fundamental deixar espaço para a utopia, o não-lugar que está nas nossas vidas - para que saibamos que há sempre que caminhar, que nunca está tudo feito, que a felicidade é mesmo o percurso e não uma meta.
A arte de ser humano está nesta gestão da sucessão de tempos, passado, presente e futuro, do confronto com a realidade possível e desejada – criar expectativas, esperar reconhecimento…
Procuramos, instintivamente, revisitar os nossos passos, inspecionar os caminhos por onde andamos, rever marcas de locais e pessoas, como se isso mudasse o passado e redefinisse o presente. Voltar atrás sobre as nossas pegadas não nos regenera, apenas nos afunda. O nosso caminhar pertence ao futuro, lá onde o tempo seja um abraço sem fim, não uma mera sucessão de momentos, com sentido de existência. Desconstruir e reconstruir, sem que o final seja o contrário do começo.