A escolha ideal

Entre as várias razões apontadas, aparece invariavelmente a falta de motivação para o voto e para a participação política, porque é de motivação que falamos.

A participação política, que passa pelo voto, mas não se limita ao voto, passa pela educação, mas também pela ideia de que individualmente fazemos a diferença também ao nível da sociedade. A participação numa banda filarmónica, numa agremiação de bairro, numa campanha de voluntariado, ou participar na direção de uma associação requer o mesmo tipo de envolvimento. É, por definição, participação na nossa sociedade e uma crença de que por muito poucos que somos podemos mudar qualquer coisa.

Então porque nos decidimos a não participar mais ativamente nas outras decisões tão ou mais importantes, que nos afetam a todos?

A resposta pode passar por algo que há 35 anos, um dos grandes teóricos da Ciência Política, Norberto Bobbio, referiu: a democracia não consegue resolver de forma definitiva todos os problemas e tem tido muita dificuldade em resolver alguns problemas importantes dos quais se destacam a eliminação de interesses organizados e particulares que se sobrepõem aos da generalidade, acabar com as oligarquias, destruir os poderes invisíveis, elevar o nível de educação política dos cidadãos e cidadãs, ou tornar-se mais igualitária.

A desilusão criada por esta falta de respostas contribuirá por certo para a desilusão e, em última análise, para o aumento da abstenção. Mas mesmo que não consiga dar respostas completamente satisfatórias, a democracia ainda dá as melhores respostas a estes problemas.

Não nos enganemos, num regime autoritário, ditatorial ou totalitário, existem os mesmos problemas, mesmo quando não se fala deles, mesmo quando não são denunciados e mesmo que sejam protegidos ou protetores dos dirigentes. A diferença é que não podemos fazer muito para alterar o estado das coisas

Esta é uma das maiores vantagens da democracia. Cria a hipótese de escolher quem queremos para enfrentar os desafios que se nos apresentam e dá-nos uma outra possibilidade, por vezes esquecida, mas não menos importante: A capacidade de decidir mudar quando não estamos contentes com as nossas escolhas anteriores.

Quando fiz parte do cineclube da escola secundária onde estudei, um dos filmes que escolhemos para o primeiro ciclo que organizámos era deliberadamente mau. A razão apresentada era bastante simples: Às vezes temos de ver maus filmes para dar valor aos bons. Mas, do mesmo modo, só quando vemos filmes melhores é que nos apercebemos de quão medíocres foram algumas das nossas escolhas anteriores.

Mudar, experimentar abordagens diferentes, soluções diferentes, é importante. Pode ser bom explorar alternativas, há sempre algo a aprender.

O que não podemos é ficar à espera que outras pessoas tomem as nossas decisões. Tal como não podemos ficar de braços cruzados à espera de uma solução ideal. Quando temos de tomar uma decisão, quando temos mesmo de optar, não adianta dizer que gostávamos de ter outras hipóteses de escolha.

Que o digam as pessoas que nos EUA não foram votar em Hillary Clinton porque preferiam Bernie Sanders. Que o diga também quem, no Brasil, não foi votar em Haddad porque preferia Ciro. Que o diga quem no Reino Unido decidiu que era altura de censurar o Primeiro-Ministro, em vez de responder à pergunta que tinham à frente.

Em nenhum dos casos correu como sonhavam. Em todos os casos no dia seguinte acordaram dentro de um pesadelo que, imagino, lhes parecerá durar uma eternidade.

Também por cá, em setembro, haverá escolhas para fazer. Se ainda tem dúvidas terá muitas oportunidades para as esclarecer com os candidatos e as candidatas que vão andar por aí, também para ouvir os seus problemas. Decida, faça as suas escolhas, é também a sua economia, a sua saúde, a sua vida que estão em causa. Não deixe que escolham por si.