Relações entre a música e o autismo

No passado dia 28 de maio, o mundo rendeu-se ao talento musical de Kodi Lee, adulto jovem com autismo, durante o programa televisivo American Got Talent. Kodi tem 22 anos, é cego, e após interpretar, maravilhosamente, a canção “A Song for you” obteve a ovação do público, e o tão desejado botão dourado. O vídeo, que circula no Facebook, tornou-se viral e já atingiu 275 milhões de visualizações. Este caso, demonstrou, uma vez mais, as potencialidades e as capacidades dos indivíduos com autismo, um assunto que vale sempre a pena recordar.

Segundo a 5ª edição do DSM, Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais, a Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) é uma patologia do neurodesenvolvimento que acarreta dificuldades na comunicação e funcionamento social associados à presença de interesses e comportamentos repetitivos.

Desde 1943, data em que o médico Leo Kanner designou a doença por “autismo infantil”, que foram notórias as capacidades musicais nestas crianças. Kanner constatou que 6 dos 11 casos clínicos que acompanhou apresentavam “uma memória musical extraordinária”, sendo que um menino de 18 meses conseguia discriminar 18 sinfonias e respetivos compositores.

Apesar destes relatos fantásticos, os talentos musicais dos indivíduos com autismo não foram, inicialmente, investigados. Apenas 36 anos depois, em 1979, é que estas habilidades começaram a ser formalmente estudadas. A partir dessa altura, descobriu-se que muitos indivíduos com PEA apresentavam ouvido absoluto (um fenómeno raro que consiste na capacidade de identificar ou de reproduzir tons musicais, sem qualquer referência) e capacidades superiores de identificação e discriminação de tons ou frequências musicais.

Entretanto, dada a musicalidade e fácil responsividade a estímulos musicais, a musicoterapia aplicada aos indivíduos com autismo iniciou-se nos anos 60, sendo que a primeira publicação científica data de 1969 (há 50 anos).

Nos últimos 30 anos, o desenvolvimento das técnicas de neuroimagem e das neurociências cognitivas (aplicadas à música) possibilitaram investigar os mecanismos cerebrais subjacentes ao talento e ao processamento musical na PEA. Sabemos, por exemplo, que apesar destes indivíduos terem dificuldades no reconhecimento de emoções faciais, conseguem identificar e nomear emoções na música. Consequentemente, os circuitos neuronais subjacentes ao processamento emocional na música parecem estar preservados.

No autismo, ou noutra patologia, mais do que apontar dificuldades, urge desenvolver as potencialidades, e em vários contextos (saúde e educação). No Canadá, a musicoterapia é uma intervenção terapêutica reconhecida e integrada nos hospitais pediátricos. Os conservatórios de música apresentam na sua oferta formativa, concertos interativos grátis e aulas de educação musical adaptadas para crianças com PEA, para que possam desenvolver a vocação musical. Nos Estados Unidos existem, ainda, associações específicas para a “música no autismo” cuja missão é o desenvolvimento das capacidades artísticas destes jovens e apoiá-los numa carreira nas artes.

É bom conhecer outras realidades e tentar reproduzir as boas práticas na nossa comunidade. As nossas crianças merecem o melhor! Haja vontade e que apareçam mais talentos como Kodi Lee.