Memória, listas e história

Nunca como hoje houve tanta documentação à distância de um clique. Registos, listas, elencos, tudo parece estar só à espera de ser consultado para que se possa contar a história de tantos que construíram esta terra e ajudaram a construir outras, atravessando o mar.

Mas, como sabemos, não basta elencar e quantificar. A história precisa sempre de alguém que assuma o seu papel de mediação em nome do restabelecimento da memória e de um maior conhecimento.

A verdade é esta: o mundo tem vindo a perder mediadores e apesar das novas tecnologias, o papel deste mediador ainda não tem substituto, no esforço de trazer memórias e interpretação dos factos à sociedade.

A disponibilidade de informação e o acesso a ela não faz com que as pessoas estejam informadas ou que a história esteja escrita. Mais: em nome da verdade, é cada vez mais necessário devolver a palavra a quem foi despojado dela.

Um dos grandes serviços à construção da verdade é revoltarmo-nos contra esta ditadura da falta de tempo, no século XXI, procurando ir para lá da primeira impressão, lutando contra uma bolha que prescinde da multiplicidade das fontes e de pontos de vista.

O problema da verdade não é nem nunca será uma questão tecnológica, mas de valores. A questão humana sobrepõe-se à questão tecnológica e por isso é sempre o fator humano que marca a diferença.

As memórias de cada um, para lá da construção institucional da história, são um antídoto para a desconstrução da modernidade e a transformação eletrónica da nossa realidade, cada vez mais segmentada e só aparentemente em ligação constante.

Um dos grandes contributos que podemos oferecer ao futuro é dar imediatamente um passo atrás, parar, ver o quadro geral, respirar fundo, resistir à tentação da hipervelocidade e da hiperinformação. Mostrar o que se passa é muito diferente de compreender o que se passa e, muito mais, de ser capaz de explicar os acontecimentos.

O mundo tem vindo a perder mediadores. Pessoas que se preocupem mais com o quadro geral, com as interações dos vários acontecimentos, com memória dos factos e das pessoas. O imediato não pode ser como ‘Chronos’, da mitologia grega, que come os seus próprios filhos. Faz falta um tempo com horizonte de sentido. Não mais tempo, como tantas vezes gritamos, mas outro tempo. Que até pode ser menos para que seja melhor: podemos ir mais longe se não quisermos escolher todos os destinos ao mesmo tempo.