Professores

Eis uma profissão que se-
ria incapaz de exercer.
Falo em específico dos professores de pequenos Seres Humanos, cuja idade não atingiu, ainda, dois lustros.

Naquele dia longínquo de um ano qualquer do início da década de noventa, visitei a minha mãe no seu posto de trabalho: a ainda denominada Escola Primária do Lombo de São João, na Ponta do Sol. Ali, a um saltinho de casa, era um sítio onde passava grande parte do meu tempo. Ainda daquele em que as professoras faziam as vezes de empregadas de limpeza, cozinheiras, porteiras, mães…

Nesse dia soube, com certeza superlativa absoluta que, aquela, não seria a minha profissão.

Devido a uma “chamada da natureza”, a minha mãe teve de se ausentar da sala de aulas, por não mais de cinco minutos. Foi o tempo de uma tão necessária paragem técnico-hidráulica, e como não havia mais ninguém (adulto) na escola (sim, apenas duas professoras a exercer no Estabelecimento) fiquei eu, do alto dos meus 11 ou 12 anos a “tomar conta” da sala.

Foi o meu primeiro e mais impactante contacto com a insurreição e beligerância. Nem os “coletes amarelos” por quem passei em Bruxelas, no Natal passado, me assustaram tanto. Em cinco segundos aquelas pequenas almas elétricas proporcionaram um levantamento de proporções gigantescas. Lápis foram arremessados, frotas de aviões de papel levantaram voo e manifestações vocais de fazer os ouvidos zunir ecoaram pela sala. Foram, decerto, os cinco minutos caoticamente mais longos da minha vida e a ida mais rápida da minha mãe à casa de banho!

Quando regressou à sala encontrou uma pequena Sara completamente descabelada e impotente perante tamanha manifestação de libertinagem infantil. Mas, o que me impressionou, mais ainda que a rapidez e facilidade com que os pequenos Seres se levantaram, como vespas atiçadas por um pau, foi a mesma com que pousaram como que bafejadas por um fole defumador. Senhora Professora entrou qual Tenente-Coronel e foi observar a manifestação a se sumir perante os meus, ainda não pitosgas, olhos.

Era no tempo em que, no processo de matrículas, as mães legitimavam, neste caso infrutiferamente, a professora a aplicar carícias a alta velocidade aos seus filhos e em que um escolhido trazia um ponteiro de vime, limado até puxar brilho, para ser usado durante o ano letivo a apontar barquinhos com o número “um” camuflado na vela ou uma letra “q” ao lado do desenho dum pato. Uma dessas mães, aquando do regresso do seu filho a casa após o primeiro dia de aulas, perguntou quem era a sua professora: “Não sei o nome, mas pinta as unhas e os beiços”! Dispensava demais apresentações, estava identificada, com absoluto grau de acuidade a Senhora Professora, minha mãe.

Exigente, mas por todos admirada, conseguia fazer saber, ainda antes de os verbalizar, os resultados dos ditados: quanto mais abanasse a perna cruzada, mais erros ortográficos se adivinhavam. Confesso que cheguei a temer que levantasse voo, tal era a velocidade com que, por vezes, abanava aquela pernoca leve.

Ainda hoje, quando a vejo abanar a perna, pergunto quantos erros está a ler e juro, já faltou menos para a ver levitar de tanta propulsão.

Agora, outrora seus alunos são meus clientes e não resisto a reenviar-lhe algumas mensagens pejadinhas de horrores que fariam Camões virar-se na tumba e, após um muito provocador introito do estilo: – ”Não tens vergonha?” fico deleitada a imaginar a minha mãe a zurzir a tíbia até ao limite.

Atualmente está tudo tão diferente, as conceções, o respeito ativo e passivo transversal a todo o universo profissional alterou-se, mas é com enorme orgulho e felicidade que revejo nos olhos do meu filho, João Nuno, o brilho doce que via nos olhos dos alunos da minha mãe, quando fala do seu Professor André.