Um poço como praia

Todos nós temos recordações que nos marcam para a vida.
Hoje trago lembranças dos meus verões em Santana.
É bom de ver que nesta freguesia do norte a praia para a maior parte da malta da minha geração era uma miragem.

Os verões eram passados sem praia de areia ou calhau, sem os complexos balneares de hoje, sem toalha, sem fatos de banho, sem protetor solar, sem guarda-sol, sem colchão insuflável, sem o cheiro a maresia.

A nossa praia tinha muita água doce, na maior parte das vezes, de cor acastanhada.

Como sabemos em Santana o mar fica distante e a solução passava por mergulhar nos poços da vizinhança, para nós “autênticas piscinas olímpicas”.

Assim que as aulas terminavam os dias de sol eram aproveitados para um mergulho nos tanques que armazenavam água para rega.

À medida que o calor apertava, lá íamos a banhos.

Na minha zona as opções passavam pelo: poço do Caminho Chão, do Sr. José Teixeira, do Agostinho do Barreiro, poço do vale, entre outros. Foi nestas “piscinas” que eu, os mus irmãos e os meus colegas da zona aprendemos a nadar.

O poço do vale era dos mais concorridos. O tanque ficava no meio dos vimieiros que serviam de balneário improvisado.

Era ali que tirávamos a roupa … e depois, uns nus, outros com as cuecas brancas à moda da época lá íamos para a “mergulhança”.

Como eramos muitos, é fácil perceber que a água límpida no início, rapidamente se tornava castanha. As paredes e o fundo eram de terra.

Muita da malta exibia os seus dotes de mergulhador. Uns de pés, outros de cabeça. Por vezes os de cabeça falhavam e batíamos de chapa na água, outras vezes ficávamos com escoriações na “peitaça” e até na cabeça.

No meio de tanta brincadeira entrávamos em disputa, para ver quem dava o mergulho da zona mais alta.

Momentos de lazer que convínhamos encerravam perigos diversos.

Não podíamos mergulhar em profundidade, pois estes poços tinham uma densidade de lama espessa no fundo com vidros partidos e outros objetos cortantes, que ao mínimo deslize era fatal.

Por esta razão, todos estes poços tinham sempre vigilância apertada dos donos, que não queriam estas festanças aquáticas.

Estavam sempre em alerta, pois não queriam que acontecesse nenhuma desgraça na sua propriedade. E quando o dono aparecia aos gritos, lá saíamos disparados para dentro dos vimieiros, onde mudávamos de roupa e escondíamos as cuecas completamente castanhas da água do poço para os banhos seguintes. Não havia tempo para secar ao sol.

Apesar de tudo foi assim que aprendi a nadar tal como os meus irmãos e muitos dos meus colegas.

Tínhamos “aulas” de natação improvisada que passavam por uma bóia ou uma corda à volta do peito ou um colega nosso a nos segurar no queixo.

Entre tantas idas e voltas, acabávamos por perder o medo, flutuando sozinhos na água. Para ter a certeza que já sabíamos nadar, o desafio final era atravessar o poço a nado sem a corda.

Outros tempos, outras recordações duma infância sem grandes luxos, mas feliz.