Mas tu não pensas?

Incrédula, a minha amiga Marta pergunta-me: mas tu não pensas? E eu fico num fio de voz a dizer que sim, que penso. Mas, se calhar, o meu sistema de pensamento não é puro. Há coisas que interferem no ato de pensar, que em mim nunca ganhou essa autonomia racional de ser apenas pensamento.

Talvez muitas vezes esteja lá aquilo a que chamamos coração, e que nem eu sei se será ele o órgão correto a convocar para uma explicação daquilo a que a minha amiga Marta chama de “não pensar”.

Penso que, muito provavelmente, seja uma espécie de sentir exacerbado por tudo. Pela minha natureza profunda, mas também pelo que de fora me invade.

Talvez seja apenas um certo desconcerto, uma certa anacronia, que sempre me fez tardia ou demasiado célere.

Mas acho que é mais esta coisa de ser tardia em tudo: nas decisões, na capacidade de enfrentar o mundo, na aprendizagem de uma certa liberdade e de tudo aquilo que vem com o sabermos tomar as rédeas dos dias.

Se pensar bem, o ser tardia e anacrónica começou lá atrás, naquele primeiro dia de aulas pela mão do meu pai. Aquele dia em que consegui aguentar o choro por horas, como argumento válido de que não estava ainda preparada para a vida longe dos meus lugares de conforto, das minhas pessoas, da minha profunda natureza de estar só e sentir para aprender a dar o passo certo no mundo.

Creio que o meu pai percebeu, embora tentasse disfarçar para não incentivar o recuo, para não incentivar a desafinação, para não me tornar ainda mais diferente. Já me bastavam os óculos que ostentava desde os quatro anos, porque os contornos do mundo me escapavam e com eles o meu lugar, o sítio certo de fazer andar o mecanismo, de saber assentar os pés e o coração em planos inclinados e em descidas abruptas.

Também dele, do meu pai, se dizia ser fraco, ter medo de tomar decisões, ter aquela inclinação de ficar encostado à casa e às coisas familiares.

E, na verdade, ao meu pai faltou muitas vezes o impulso de pés, de coração e braços, para alcançar o que a alma queria e o peso do corpo e dos dias não deixavam.

Talvez com ele, e também com a minha mãe, tenha aprendido que vale a pena o medo do salto, mas que também vale a pena o salto. Só que aprendi a descompasso. Sou mais lenta. Faço as coisas fora de tempo. Perco aviões, comboios, camionetas. Chego quando a festa acabou, mas conheço a festa nesse momento crucial em que ainda existe magia, mas também a noção do fim.

Para mim, porque anacrónica e lenta, a aprendizagem faz-se a um ritmo descompassado do mundo, tardio, não raras vezes doloroso.

Ainda assim, vale a pena. Ainda assim, o caminho segue o meu rumo. Ainda assim, chego do avesso ao direito. E penso, e sinto, e erro, caio, sinto saudades do futuro. E a minha amiga Marta, vendo-me nesta anacronia constante, pergunta-me: mas tu não pensas?