Do poema deitado sobre o corpo

Dizem-me que a poesia não vende, que os poemas não servem para nada, que são só beleza ou melancolia. Que, por vezes, são feios, outras o horror. Que são o medo e são a fome. Eu pergunto-me, tanto, para que serve um poema. Para que me têm servido a mim os poemas. E também já pequei fazendo esta pergunta a um poeta. A mais do que um. Depois, ponho-me a pensar no desastre que emancipa tal indagação [como se fosse possível indagar o corpo à poesia, ou aos poetas]. Só posso falar daquilo que um poema me faz, mesmo quando é só solidão e pálpebra inventada, um osso desabitado ou a pele em espera absurda. O poema é uma transfusão que me é sempre urgente, mesmo que o seu sangue me não aqueça nem arrefeça. Sabê-lo ali, presente, como a mão morna da mãe pousada sobre o peito liso do filho, pode bastar-me; não sempre. Que engano, pensarmos que as mãos das mães tudo podem, que a devastação do seu calor se nos agarra aos cabelos, ou que o ar rarefeito de um poema nos entra pelos pulmões sem maculá-los.

Ontem foi assim. Abati-me sobre as membranas todas de uma estrofe; aquele encantador animal de enorme porte que veio beijar-me antes que eu morresse. Como saberia ele da hora certa, desse instante vedado, da batida carne do meu coração ainda tão vivo? Podia ter-lhe fugido? Podia; mas para que cimo da terra? Que fresta do mundo me esconderia do seu pêlo luzidio em alvoroço? Na verdade, não lhe escaparia. Há que ver a realidade, a vida como ela é – se é – à luz da escuridão. O desassombro de um corpo nu ou a loucura audível de uma criança. E, no entanto, dizem-me que a poesia não vale, que há outras facas melhores e mais afiadas a abrir feridas, e outros monstros maiores, mais belos e ferozes, todos eles mortíferos à primeira língua. Que fiquem então esses para os que se pelam por morrer à primeira. Será uma morte santa, como lhe chamam, e consta que há quem goste. Morrer sem mais nem menos. Nem mais nem menos. Sem sentir o último hausto do tempo a enrolar-se entre os dentes da morte. Há quem não goste de despedidas; e, para esses, o tempo é quase sempre menos divino; mais mortal. Mais cedo ou mais tarde, sem mais nem menos, a ironia acaba por vencer-nos. Líquida e transladada. No fundo, é como o poema. Se não vamos morrer-lhe dentro, vem ele deitar-se sobre o nosso corpo. Frio ou quente. Morto ou já vivo. E talvez nesse derradeiro momento, embrenhados na queimadura radial, no silêncio para onde somos levados quando o tempo se transforma na rosa hepática que nos sobe à boca, talvez aí, à berma da nascente esvaída, possamos decidir de que morte queremos morrer.

A ironia é que um poema é a desordem. O poema não vende. Nem serve, assim de repente.