Os utentes contam?

Professores e enfermeiros continuam a liderar os protestos nacionais, do norte às ilhas. Parece também que vem aí nova investida dos motoristas de matérias perigosas.

No centro do inconformismo estão sobretudo questões salariais, cuja origem remonta aos ajustamentos político-económicos impostos à esmagadora maioria dos portugueses. E porque é que só reclamam estes grupos profissionais? Porque provavelmente são os únicos que o podem fazer; porque as funções específicas que exercem proporcionam-lhes condições para ir à luta.

O caso dos professores, que começou por abalar o Governo da República e acabou com PSD e CDS com o ‘rabinho’ entre as pernas, tomou proporções que não coincidiam com os verdadeiros intuitos do protesto.

Uns e outros serviram-se da disputa para fins meramente políticos. Teria sido útil que, professores e políticos, tivessem aproveitado para ponderar o que aí vem no próximo ano letivo, no qual as escolas vão deparar-se com mudanças importantíssimas para a eficácia do Ensino.

Mas não. Do corporativismo dos professores só ressaltam números. Salários. Carreiras. Raramente se ouve aos profissionais do protesto – ‘professores’ que estão há cerca de três décadas sem dar uma única aula – falarem das crianças, dos estudantes, que são os ‘utentes’ do Ensino. Nem sequer da forma como os professores deveriam estar a preparar-se para dar o salto, tecnológico ou curricular, para melhorar a Educação e acompanhar a pedalada dos alunos. Sim, porque quem está sem pedalada são muitos professores, com receio de ‘tablets’ e mesas viradas ao contrário. Esperemos para ver…

Dos políticos, na questão dos professores, podemos esperar ainda menos: no continente, louva-se a habilidade para travar a injustiça de recuperar salários apenas a uma parte da sociedade. Por cá, numa terreola que tem cerca de 500 professores a receberem salários por funções que não a presença nas salas de aula, cedeu-se demasiado por mero interesse político. Até Paulo Cafôfo, o candidato socialista que despiu essa veste para voltar a ser professor, subscreveu o privilégio aos seus colegas no dia em que o primeiro-ministro impunha exatamente o contrário.

E, uma vez mais, sem nenhuma preocupação com os ‘utentes’ da Educação: os alunos.