O cansaço como validação de si

“Estou cansado, é claro,

Porque, a certa altura, a gente

tem que estar cansado.

De que estou cansado, não sei:

De nada me serviria sabê-lo,

Pois o cansaço fica na mesma.

A ferida dói como dói

E não em função da causa

que a produziu”.

(Álvaro de Campos)

Todos nós vivemos, vimos e ouvimos histórias de familiares que passaram a vida a trabalhar. Sobretudo para quem é do “campo”, são muitos os relatos de homens e mulheres cuja existência foi dedicada à terra, a “poipar” e a procurar superar as inúmeras dificuldades de um tempo de escassez e muitas ameaças à sobrevivência. Talvez não houvesse mais sonhos do que deixar algo melhor ao filhos, mas as sucessivas vagas de emigração, algumas para destinos tão longínquos como o Havai (por estes dias, justamente, recordado no Centro de Estudos de História do Atlântico), mostram que haveria em muitas pessoas a ideia de que a vida poderia ser algo mais – ainda que, no destino, tudo se viesse a revelar basicamente o mesmo…

Curiosamente, hoje pouco parece ter mudado. Quantas vezes damos por nós a dizer que estamos cansados? Esgotados? Há dias, alguém perguntou-me mesmo: mas tu já viste alguém que não esteja cansado?

Isso deveria perturbar-nos. Numa sociedade em hipervelocidade, em que só o excesso conta, o cansaço aparece como validação de si. Canso-me, logo produzo (será?). Logo, existo. É como se tivéssemos desaprendido os ritmos da natureza, como se cada momento pudesse ser tempo de colheita, sem respeito pelos ciclos, pelas pausas, pelo silêncio que permite crescer.

Vivemos numa terra cansada, que já não se preocupa em ser fértil, apenas em parecer bem, em ser instagramável. As fotos bonitas podem disfarçar o cansaço, mas não são capazes de lhe dar sentido.

Não é normal, não é aceitável que vivamos sempre no limite, extenuados, pressionados por um sistema de exploração intensiva, desmedida e desrespeitosa, totalmente impensado, que nunca poderá dar bom resultado. Seria de esperar que, já no final da segunda década do século XXI, os tempos fossem outros, com novos objetivos, com outras respostas para as necessidades do ser humano, valorizando o tempo de lazer, a criatividade, a capacidade de construir coisas diferentes e não apenas de persistir em gestos repetitivos, sem grande sentido, apenas porque é o que se espera de nós.

O cansaço dos bons, como sabemos, tem sido a oportunidade dos maus. Vamos combatê-lo.