Havia um “besulho” na panela

Existe uma secção nas obras “As ilhas de Zargo” (escreve-se mesmo assim, em português arcaico) do Padre Eduardo Nunes Pereira, que se dedica à etnografia madeirense. Lá em casa há um exemplar da primeira edição autografado pelo autor, devidamente isolado de mãozinhas pequeninas e incautas.

Esta secção é uma espécie de dicionário de palavras que se usam no nosso Arquipélago e posso dizer, com cagança, que conheço quase todos, ou não fosse filha de pai canheiro com e de mãe pontassolense cruzada com mais canheiros, que orgulhosamente trocam “ãs” por “ãos” v.g. “amanhã” por “amanhão” e os “lio” por “lhie”, tal como “Nélio” por “Nelhie” (como faz o meu pai, canheiro de gema, do Outeiro onde nasceu e das Cruzes onde viveu e que nem quarenta e cinco anos de convivência pontassolense conseguiram atenuar).

Foi uma empresa, aquela que me levou a alcançar o grau de “apta” em regionalismos madeirenses.

Tudo começou com uma conversa de sábado à tarde, lá em casa, entre a minha mãe e a minha tia-avó (basicamente tia dela, irmã do meu avô), que lá ia fazer o maravilhoso pão de casa. Estava eu a lambuzar-me no brindeiro com manteiga, que tirava sempre no primeiro quarto da fornada, quando uma frase me chamou a atenção: “ela levou um pancume nas arcas, por medo da panela ter um besulho e a sopa ter derramado”! Ua cão! Senhoras?? Não atremei?!... Indaguei a minha falecida tia (chamemos-lhe assim, para simplificar) ao que me respondeu: “um besulho, um ilhó”! Ah mãe, ah mãe, ah mãe… Fiquei na mesma, olhando para a minha progenitora com ar perscrutante, aguardando salvação. Sim, até porque se ela percebia o que o nosso vizinho Zé Pinheiro, fanhoso crónico, dizia, também havia de me esclarecer a palavra!

Cruelmente nada disse, abandonando-me num estado de elevada frustração, porquanto não entendi a bilhardice que sucedia perante os meus sentidos.

Mais tarde, após a despedida da tia, com os pães embrulhados na toalha de linho da terra, fomos para o terraço da garagem onde, do outro lado, Zé Pinheiro desejou: “uatadi”, a única expressão que percebia sair da sua boca e que julgo ser percetível a todos, seguida duma espécie de receita médica falada, que só farmacêuticos entendem e que acabou com a minha mãe dizendo: _“É verdade Sr José, está uma barra amarela por detrás da Igreja, vem aí tempo de leste.” Oh diabo! Esta gente fala em código! É uma cabala contra mim! Querem tomar o reino do Lombo de S. João nas minhas costas!

A dicção de Zé Pinheiro transcendia as minhas faculdades, mas não o “besulho”. Ataquei as ilhas, as tais, de Zargo e decorei o máximo de vocábulos que consegui passando a usá-los na minha linguagem corrente, misturada com palavras eruditas, com a naturalidade que a comunicação exige.

Quão útil já me foi. Presto, amiúde, serviço de “tradução” a magistrados deslocados: “Ah nhóra datora, ele largou com a verga nos vazios da bezerra de modos que ficou toda empalamada, ainda subi as passadas, mas po medo das dores nas adoelas, quando alcancei, já a bezerra tinha peimado”…

Quanto ao “besulho”: é um buraco.

Era um buraco na panela.