Dentro da terra o frio não chega

Um verso encoberto pelo pomar. A primeira maçã na língua do poeta, ardor deitado sobre o chão de terra onde os mortos já não vivem. E agora? O que fazer dos braços e pernas, do cabelo que ainda guarda o vapor da tua saliva, da minha clavícula ainda tão nua, osso inteiro entre os teus dentes. Desta roupa limpa que me suja o corpo onde o céu se pôs.

​Os poros todos são feridas fechadas e nada se vê à superfície. Hei-de esfregar a pele, coçar-me onde vem doer-me a tua, só para ter a certeza de que isto é tudo, que poderemos ferir-nos na terra escura, morrer na guerra, e colher ímpias maçãs pela semente, se a boca chegar em súplica à cintura da árvore mais alta e dela descer uma crosta de água. Nascer uma palavra. Uma palavra só, pesada como mil pedras, apregoando o nó na tua garganta, o caminho perdido para casa. Haverá sempre este frescor vindo das folhas, ou do vento lento dos teus beijos. Esse lugar de espera onde nada se acaba. Se aqui estivesses, o meu corpo morreria outra vez da vida que me davas, e tu bem sabes como descreio em ressuscitados. Mesmo sendo eu um deles. Só se devia morrer uma vez, mas ninguém controla as vezes que um coração pára. Parece que foi ontem, lembras-te? A água subia-nos pelo corpo como um cão faminto, e ainda nem o corpo era vida. E eu chorava inteira para dentro quando os teus dentes me beijavam. Sentia tanto e tudo no meu corpo de lodo. Entrava devagar no meio das tuas mãos pedestres, e nelas me imortalizava, como numa fotografia predestinada. Logo eu, que nem acredito em destinos. Eras tu. Fazias-me acreditar em todas as mentiras, das mais pequenas às mais universais. Contigo eu podia ser. Morrer de todas as vezes, perder-me como um animal amaldiçoado no último pêlo do teu corpo. Evadir-me da biologia dos dias, ou mesmo ignorá-la, como as crianças que não viram ainda a escuridão do mundo e a falsa luz dos homens. Mentiram-nos. Não é verdade que não haja beleza numa mentira; num pomar onde nascem de uma vez só todos os versos e as árvores crescem velocíssimas para dentro da terra. Será menos bela uma maçã subterrânea? Ou um nó fora da garganta de Adão? Que cansaço… o das perguntas cujas respostas são sempre uma fraude. Este fastio tão sentido que mascara uma qualquer outra ordem em que nos decompomos, antes e depois de vivermos desinfectadamente. “Deus foi bem cínico, dando-me só a tua ficção”. O Vergílio tem respostas até para as perguntas que ainda não existem. Há perguntas que nunca chegam a existir, que foram engolidas pela terra antes de se transformarem em frutos pendidos nas árvores subalternas. Na verdade, como na mentira, há sempre algum cinismo a rir-se do alto quando o importante nos acontece. Uma boca privativa que, sem urgência, espera pelos nossos súbitos, pelo nosso espanto, e, depois, nos reconduz para dentro [vem. Lá fora está tudo frio].