Uma história da montanha

O arquipélago da Madeira respira pelo mar. É ele que, historicamente, trouxe para as ilhas as novidades que as transformaram, e foi ele que levou ondas de emigrantes para os cinco continentes, num fluxo incessante. É um fascínio incontestável, que se agudiza com a deslocação em massa da população para o litoral, num abandono do que tem sido o coração da ilha grande: a Montanha.

Sejamos claros: poucos são os que querem subir estas serras tão duras, hoje cicatrizadas por levadas, poios e veredas que o engenho e a coragem humanas conseguiram criar. A diferença entre a Madeira e os Açores, por exemplo, é tremenda: poucas são as povoações das nove ilhas que não foram levantadas junto ao mar. Por cá, foi a montanha que colocou à prova a determinação dos povoadores e moldou a essência do que é ser madeirense.

Nos seus subsídios para a história de São Roque do Faial, o padre Silvério Aníbal de Matos constata que, à imagem do que terá acontecido em inúmeros povoamentos iniciais nos séculos XV e XVI, os primeiros colonos começaram a instalar-se junto às ribeiras barulhentas, na parte baixa do que é hoje a freguesia. Foi ali, enfrentando enchentes e derrocadas, que deram início a todo o processo de transformação destas terras. Só no século XX, aliás, seria a igreja paroquial construída numa zona mais alta e central.

As zonas altas foram, durante centenas de anos, destino do pasto coletivo para o gado – uma outra dinâmica de ocupação do território com forte impacto nas migrações internas e na mistura de populações. Mais abaixo, as águas das ribeiras, que forneciam as casas e abençoavam as culturas agrícolas, eram também uma ameaça constante, provocando morte e devastação em sucessivos aluviões. A população acabaria por aventurar-se montanha acima, criando uma sequência de construções que é uma visão absolutamente impressionante de ocupação do espaço, também ele hostil e ameaçador, mas que acabaria por ceder ao poder do ser humano – não sem cobrar o seu preço elevado em acidentes e derrocadas que se sucederam no tempo.

Penso ser indispensável refletir com mais profundidade sobre o que foi a relação histórica entre as pessoas e as montanhas por onde se espalharam e multiplicaram. Como viam estes montes e as suas forças invisíveis, como se relacionavam com eles, o que os assustava para além daquelas luzes esporádicas, os pequenos archotes em que muitos julgavam ver danças de feiticeiras.

Sim, é impossível conceber as ilhas sem o mar. Mas nunca será possível compreender a Madeira se não encontrarmos uma narrativa adequada para contar a História da Montanha.