Ver ciscos nos olhos dos outros

«Não teve qualquer hipótese. O seu primeiro erro foi ir buscar comida sozinho (…). O segundo erro (e mais grave) foi ter-se afastado demasiado, para dentro do bosque (…) onde se arriscava a encontrar os Outros, que viviam na parte mais alta do vale, junto ao cume. Primeiro eram apenas dois e tentou enfrentá-los. Depois apareceram quatro, por detrás e, de repente, estava cercado. Deixaram-no lá, a esvair-se até à morte e mais tarde voltaram, para mutilar o seu corpo.»

Podia ser um início de um filme de terror baseado numa variante da história do Capuchinho Vermelho ou de um conto fantástico, mas não é o caso. Esta é a crónica da morte anunciada de um jovem chipanzé, num parque natural do Uganda, relatada em 2006 por John Mitani. O artigo do Jornal de Primatologia refere que ao longo do tempo ocorreram mais 20 mortes semelhantes, até que não havia mais ninguém e «os Outros» conquistaram todo o vale. Em menos de uma década mataram todos os machos vizinhos, raptaram as fêmeas e conquistaram todo o território.

Robert Sapolsky, um biólogo e neurologista norte-americano, usa esta mesma descrição num artigo sobre o cérebro e nacionalismos, publicado no número de março-abril da revista «Foreign Affairs», como ponto de partida para uma análise biológica e comportamental:

Se este comportamento acontece com os chimpanzés, com quem partilhamos cerca de 98% do ADN, poderíamos concluir que a agressividade para com os elementos do outro grupo, «os outros», é uma característica intrínseca e inata?

Uma resposta afirmativa seria, no mínimo, redutora. Partilhamos os mesmos 98% de ADN com os bonobos e nesses nunca foram detetados comportamentos agressivos semelhantes. Se há uma componente inata na definição do comportamento para com «os outros» há simultaneamente uma construção social e cultural associada. Basta ver como ao longo da história os humanos mataram (e ainda matam) por recursos e território ou em nome de ideias abstratas como ideologia ou religião. Mas, também são capazes de mudar o seu comportamento. Como lembra Sapolsky «no século XVII os suecos espalharam o terror pela Europa [e construíram o terceiro maior império da Europa superado apenas por Rússia e Espanha] e hoje são, bem, os suecos».

​As dinâmicas de identificação do grupo são muito complexas e, socorrendo-me novamente de Sapolsky «Os melhores e os piores momentos da humanidade são fruto de um sistema que inclui tudo, desde o que se passou há um segundo de atividade neuronal até aos últimos milhões de anos de evolução». As dinâmicas das relações intra e intergrupais são simultaneamente biológicas e cognitivas.

Vivemos num mundo cada vez mais global e numa mente tribal. Em frações de segundo identificamos quem é de «nós» e dos «outros». É mesmo um mecanismo natural, automático e forma-se desde a mais tenra idade. Somos simpáticos com quem consideramos «dos nossos» e mais hostis com quem classificamos como sendo «dos outros». Há uma componente biológica envolvida nesta dinâmica, associada à amígdala cerebelosa, na zona mais «antiga» do nosso cérebro. Por outro lado, somos também animais sociais, capazes de criar ligações e pontos comuns de identificação pelas mais diversas razões e baseados em quase tudo: cor da pele, religião, nação, partido, clube, gosto musical, moda… Tudo pode servir para unir (e, por oposição, dividir).

Claro que estas classificações são sempre muito fluidas e os «outros» de um dia, amanhã serão «nós» ou vice-versa.

Esta dicotomia entre nós e outros é também a base do mecanismo que justifica que tantas vezes se assista a um fenómeno curioso na relação entre indivíduos ou grupos sociais, que na sabedoria popular se chama «ver ciscos nos olhos dos outros e não ver cavacas nos próprios».

Por exemplo, uma das mais recentes polémicas, é a relativa às nomeações de familiares de pessoas nomeadas ou eleitas para outros mandatos. Resume-se numa frase: «Eles nomeiam pessoas das suas famílias para lugares de confiança política, e isso está mal!».

Consoante se acha que o grupo a que se pertence é o dos que nomeiam ou dos seus opositores, é um comportamento normal, porque a confiança política implica alguma relação de proximidade, ou altamente reprovável, porque não se está nesse círculo de confiança. No entanto, onde e quando o grupo dos opositores está ou esteve em condições de exercer as mesmas competências, procedeu de modo semelhante.

E se em vez de familiares definirmos o grupo de pertença das relações de amizade próximas, das relações económicas, clubistas, partidárias, religiosas, ou do mesmo gosto por aventais?

Estou certo de que, quem tão prontamente encontra ciscos nuns olhos, falhará em encontrá-los noutros. Se calhar por causa das cavacas que tem nos próprios.