Ninguém nos tirará o nosso Mercado

Tenho uma forma estranha de lidar com a saudade. É tão imensa que a palavra nem tradução tem e difícil será, mais ainda, encontrar-lhe uma definição justa. A saudade é todo o aroma que fica, os sons, os movimentos, as pessoas, os encontros e desencontros. A saudade é aquilo que fica gravado na cabeça mas, mais, no coração. E é no coração que me ficam todas as sextas-feiras em que, à tarde, ia ao Mercado com a minha avó. As mesmas bancas para compras, todas as vezes; o rebuliço de quem prepara a semana seguinte e de quem escolhe as melhores verduras e o melhor peixinho; o encantamento de quem vem de fora e descobre um espaço tão rico.

Fica-me a saudade, que (re)visito todas as vezes em que passo no Mercado. Todas as vezes em que eu e a avó Vera nos lembramos dessas sextas-feiras, em que eu, pequena, não percebia o encantamento daquele lugar. Hoje, são outros os tempos. Mas a beleza, a riqueza e a complexidade do Mercado dos Lavradores mantêm-se e agudiza-se uma necessidade de proteger o nosso património e tudo aquilo que é reflexo da nossa História, dos nossos costumes.

E, hoje, nestes novos tempos, o Mercado já não é só nosso, dos de cá. É um espaço de todos. De quem lá trabalha, de quem cá vive, de quem nos visita. De quem o descobre, explora, de quem o experimenta. O Mercado não tem um só dono, nem pode ficar refém de uma estratégia modernista que não se adapta à sua idiossincrasia. Ninguém o quer transformado num centro comercial, mas sim que se mantenha a sua função principal - a de transação de produtos de subsistência. Do que é nosso, do que é regional. E que se proteja o edifício, o património, as memórias, as suas pessoas.

Aliás, não é por acaso que o Mercado dos Lavradores é imóvel de interesse municipal desde 1993 e que, até 2013, ao longo das sucessivas lideranças do PSD na Câmara Municipal do Funchal, tem este edifício sido alvo de várias obras de requalificação. Além deste factor, é importante salientar a aquisição de equipamentos e, ainda, a colocação de cobertura e de painéis solares térmicos, assim como, a instalação de elevador, num investimento de quase novecentos mil euros. A par da obra física, eleva-se um sem números de iniciativas dinamizadas pela vereação social democrata que, aliás, foi quem mais investiu nos mercados municipais.

É por isso que digo, imbuída nesta estranha saudade dessa felicidade que vivi na minha infância e que hoje transmito ao meu filho, que não quero o Mercado dos Lavradores entregue a um projeto leviano, cuja pompa e circunstância a ele associados deturpam a verdadeira intenção de quem quer contrariar a riqueza daquele espaço! Projeto, esse, que todos queremos conhecer a fundo, mas que, com palavras e, talvez, receios, nos é negado o acesso. Veja-se a falta de resposta aos vereadores social democratas que, a 8 de novembro de 2018, pediram o projeto previsto para o Mercado, mas apesar da lei o obrigar, a verdade é que os vereadores de Cafofo nada entregaram.

Mas, mais do que eu e muito mais importante e crucial, não querem os comerciantes, muitos a viver somente daquela sua atividade, uma transformação duvidosa e a gosto só de alguns treinadores de bancada, que não ouviram quem de direito e que não entendem a importância do Mercado.

Inclusive, foi, mais uma vez, elevado este espaço da cidade do Funchal com a aprovação, por unanimidade, desta feita na Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira, do projeto de resolução apresentado pelo PSD e que recomenda a classificação do Mercado dos Lavradores como monumento de interesse público. É um sintoma: afinal, há quem queira dar dignidade e clarificar o lugar que este mercado, tão nosso, merece.

Mesmo que haja quem diga que esta nova classificação não serve para absolutamente nada, é certo que tudo será feito para que este edifício perdure na nossa História, tal como é. Com cada particularidade que faz dele um lugar único. Com cada olhar já nele intrínseco; com cada homem e mulher que o descobre a cada dia; com cada pessoa que, como eu, sente saudades dos cheiros de outros tempos e que o (re)visita, pela memória e ao percorrer o seu todo. Ninguém nos tirará o nosso Mercado. Ninguém.