Os perigos do otimismo irritante

De adiamento em adiamento, continua a saga Brexit no Reino Unido. O Ministro dos Negócios Estrangeiros português disse numa entrevista esta semana que a “credibilidade” de Londres “já foi [há] muito perdida, constitui hoje um dano”. É uma opinião. Outros diriam que é o funcionamento da democracia. Nas sábias palavras de Winston Churchill: “a Democracia é a pior forma de governo, à exceção de todos os outros já experimentados ao longo da história”.

Podemos dissertar páginas e páginas sobre a política interna do Reino Unido e os perigos que se materializaram ao fazer promessas impossíveis ao eleitorado, mas para nós é essencial garantir a própria credibilidade do governo português neste capítulo, verificando se realmente fez o seu trabalho de casa ao longo dos últimos dois anos.

Há dois anos que o Reino Unido acionou o Artigo 50 para efetivar a sua saída da União. Há dois anos que alertamos para os necessários estudos de impacto económico. Há dois anos que chamamos a atenção para o reforço do atendimento consular para as nossas comunidades no Reino Unido. Há dois anos que dizemos que só se consegue preparar os cidadãos e as empresas para o choque do Brexit, se se der os instrumentos de apoio atempadamente. E o que é que o governo nos chama há dois anos? “Alarmistas”. Regra geral não sou apologista de dizer “nós bem avisamos”, mas neste caso é incontornável.

Enquanto outros países se precaveram atempadamente e até nos orçamentos já previam verbas concretas para fazer face às consequências do Brexit, o otimismo irritante do Primeiro-ministro português deixou tudo para a última hora. Literalmente, como foi o caso da lei relativa aos direitos dos cidadãos britânicos em Portugal. Que é essencial para depois conseguir a necessária reciprocidade dos direitos dos portugueses que vivem e estudam no Reino Unido – 400,000 portugueses, dos quais 100,000 são madeirenses. E devido ao atraso da entrega da proposta de lei do governo, somente foi possível melhorar e votar essa lei dois (!) dias antes do prazo inicial do Brexit.

​Na verdade, preferiram sonhar com o investimento que viria para Portugal, decorrente do Brexit. Charters de empresas, que se iriam deslocalizar rumo ao nosso país! Criaram uma estrutura “Portugal In”, liderada pelo nosso conterrâneo Bernardo Trindade para esse efeito. Mas desconhecem-se os resultados reais dessa iniciativa. Há mais de um ano que os relatórios semestrais obrigatórios da estrutura não são enviados ao parlamento.

E quer o ministro português mesmo falar da credibilidade alheia? Infelizmente na política a humildade não é tão valorizada como deveria, mas seria melhor começar a olhar para a própria responsabilidade do núcleo executivo na preparação do país para fazer face aos choques internacionais. Esse núcleo socialista que até é comentado pela imprensa internacional por ser tão… familiar.​

​Sugestão da Semana

A RTP-2 tem das melhores programações televisivas em Portugal. Por estes dias está a ser emitida a série “Parentes Próximos”. Por momentos ainda pensei que já era a adaptação televisiva do #familygate socialista, mas fiquei agradavelmente surpreendida com esta série dramática britânica sobre terrorismo, integração e até onde se vai para proteger a família.