Levei um piolho a analisar

Sou um espécimen desarrumado por natureza, mas tenho a mania das limpezas e incomoda-me, sobremaneira, maus odores de qualquer espécie, mormente corporais.

Quando estudava em Lisboa tinha dificuldades em entrar no Metro em hora de ponta, tais eram os aromas citadinos que pululavam de sovaco em sovaco de pezinho em pezinho e além corpo. A minha cara ansiosa era percetível sempre que alguém, cujo último banho remontava à Era de D Carlota Joaquina, ameaçava levantar um dos membros superiores para se segurar naqueles suportes aéreos dos transportes públicos.

Recordo de quando estava em casa, na Ponta do Sol, no caminho público: a perseguir um chinelo que deitava levada abaixo, de propósito, ou a dormir uma soneca em plena faixa de rodagem, tal era o enorme fluxo automóvel, sentir um aroma a tabaco marca Além-Mar ou Santa Maria a se aproximar e a passar, após um bom dia ou boa tarde, até se desvanecer, trinta minutos mais tarde, como que a perseguir o fumador como a cauda dum cometa numa galáxia distante.

Fui, como se vê, uma moça de campo muito preocupada com a limpeza e, ainda hoje, sempre de campo, mas muito de cidade, preocupada com a higiene, de tal forma que este cabelinho louro, ruivo ou da cor que me apetecer tem de ser lavado diariamente, senão duas vezes por dia. Reporta-me, este facto, ao que uma prima da minha mãe uma vez me disse: “se lavas o cabelo todos os dias a raiz nunca seca”, ao que repliquei: “Não me digas que vai melar?” (que para quem não sabe é uma expressão usada para o decesso das plantas por excesso de água).

Suponho que ainda era Advogada-Estagiária quando, no meu primeiro escritório, desprovido de luz natural e de onde saía quase albina dada a carência de vitamina D, senti uma comichãozinha na cabeça, mas não uma comichãozinha qualquer, era móvel, ora uns milímetros para cima, ora uns milímetros para outro lado. Indaguei, que não sou moça de deixar macacos ou outro tipo de ser vivo habitar-me a mona e consegui encontrar um pequeno “objeto” não identificado que agarrei com unhas e dentes (mentira, só unhas) e que coloquei em cima da mesa levando, quase instintivamente, a unha do polegar direito, pintada duma cor garrida qualquer, a esmagar o dito até ouvir “picc”, sinal de falecimento fosse lá do que fosse. Fiquei a observar, como um cãozinho, com cabeça de lado a tentar perceber o que me ocupava o tampo da mesa. Chamei a funcionária para pedir opinião. Inconclusivo.

Na incerteza do que me habitou a cabeça por alguns momentos, peguei no cadáver do bicharoco que jazia na minha frente, coloquei-o sobre uma folhinha amarela de “post-it”, cobri-o com fita-cola e tomei a decisão mais sensata do momento: levei-o a analisar.

Não foi no Instituto Ricardo Jorge, nem sequer num Laboratório científico escolar, porque o meu egoísmo não me permitiu doar o corpo (do bicho) à ciência. Agarrei na amostra, enfiei-a na carteira, direitinha ao encontro da senhora minha mãe, no seu emprego. Ela que ministrara aulas a crianças abaixo dois dígitos durante vinte e três anos seria a Técnica Superior indicada para tão hercúlea tarefa. Aguardei na rua, frente à porta, como habitualmente, porque já se sabe que em locais de trabalho públicos não se pode entrar de qualquer maneira, muito menos com seres inanimados não identificados dentro da carteira e, mal a minha Mãe entrou no carro apresentei-lhe, em silêncio, a amostra. Análise mais imediata que um sopro no “balão” duma Operação Stop: “O que raio fazes com um PIOLHO num “post-it”?

Mistério resolvido. Pânico instalado: e se se reproduziu? E se conseguiu autorização de residência para a família toda com base no reagrupamento familiar? E se tenho um infantário de lêndeas lá na “Penthouse”. Com a mesma celeridade com que analisou o bicho, sentenciou a minha mãe: “da maneira que lavas a cabeça, já morreram todos afogados”.