Tenho duas casas

Perante a impossibilidade de ter apenas uma casa, ele sonha com ela. Vai crescendo a sonhar e isso permite-lhe não chorar, porque ele ainda acredita na casa com jardim e um cão para brincar.

Na sua memória existe apenas duas casas e nenhuma tem jardim, nem cão para brincar.

Tem dias que na mochila esquece de colocar o brinquedo predileto e à noite chora escondido debaixo dos lençóis. Sente saudades da outra casa, e do seu brinquedo favorito.

As circunstâncias que o levaram a crescer em duas casas, fizeram dele a criança sonhadora e brilhante de um conto de fadas. Neste conto, como em todos os outros, existem gnomos brincalhões, dragões protetores, unicórnios mágicos e bruxas más que entram na noite escura e lhe causam medo. Na história dele também existem os dinossauros que falam, embora não respondam aos pontos de interrogação que vagueiam na sua mente de criança crescida.

Ele tem duas casas, e muitos brinquedos divididos pelas duas. Os gnomos e os unicórnios ficam numa casa e os dragões ficam na outra, para proteger a noite escura e espantar os medos.

Recentemente dizia-me “Não gosto de andar sempre a fazer a mochila e mudar de casa”.

Num sorriso, respondi-lhe que ele era um sortudo porque tinha duas casas. E ele respondeu-me, “Mas queria ter só uma família!”.

Silenciou-me! Olhei-o, e apenas o abracei.

Ele é uma criança FELIZ. Só queria ter apenas uma casa e que os pais estivessem juntos numa só família. Pai e mãe fomentam uma atitude positiva perante as adversidades do dia-a-dia e a impossibilidade de reconciliação. Não são amigos, falam apenas o essencial. Todavia, ambos amam o filho e demonstram-no a cada instante. Ele é uma criança FELIZ, mas como diz muitas vezes “Seria mais feliz se os meus pais estivessem juntos”.

Hoje, verbaliza o que lhe vai na alma de criança que conquista a coragem do pequeno guerreiro.

Os avós, com um papel fundamental no seu crescimento estreitam os laços familiares e tornam a vida dele numa só família, mas com duas casas.

Muitas, poucas ou nenhumas implicações psicoemocionais estarão presentes, mas cada criança sentirá de forma diferente e, exprimir-se-á, de forma adaptada à sua personalidade e ambiente que a rodeia.

Muitas das crianças com duas casas, serão os dragões do futuro e os unicórnios mágicos do presente. Serão capazes de ajudar os seus progenitores na caminhada solitária da sua missão de pais.

Educar, implica privilegiar outras dimensões, que nos conduzem à reflexão no papel a desempenhar como pais, sem julgamentos e com atitude positiva, mesmo tendo duas casas. São vínculos que os unem pela eternidade.

Ele quer ter só uma casa para ter uma família, mas ele, é FELIZ mesmo tendo duas casas e, em cada uma delas, a sua família.