Aprender a ser uma senhora

Não me lembro de a minha mãe me ensinar as ‘coisas da casa’. Eram assim chamados esses pequenos afazeres domésticos, que iam desde a culinária a tudo o que era preciso para manter a vida no sítio e o lugar habitável.

Verdade que a minha mãe confessava que não gostava muito daquilo de passar os dias entre a cozinha e os quartos, entre o poço de lavar e a tábua de engomar, entre o quintal e as flores. Talvez por isso sonhasse que nos havia de libertar da missão de uma vida encostada à casa.

Mas havia sempre umas tias atentas, uns familiares que se faziam ouvir nessa necessidade de as meninas aprenderem o único futuro que conheciam.

Sim, bem podia tirar a cabeça dos livros e das nuvens, que a vida no solo duro e concreto exigia que me fizesse uma senhora. E uma senhora não passa os dias a sonhar, a ler, a trepar muros e a assobiar aos pássaros como os machos.

Juravam que haviam de arrancar de mim todas aquelas inutilidades de uma cabeça a voar sempre por cima do que me faria gente de verdade.

Assim, quando me apanhavam a sós, lá vinha uma vassoura que nunca fez mal a ninguém, ou uma manhã na cozinha a descascar ervilhas e feijões, ou um pano de espalhar cera à casa. Ou, pior ainda, um daqueles bordados e malhas e agulhas, que exigiam uma técnica e uma paciência que não tinham, nem queria ter. Coisas que uma senhora faria e que eu tinha que aprender com esmero e dedicação, mesmo que sem carga absolutamente nenhuma de vontade própria e entrega.

Eu conhecia a retórica toda e, para minimizar largas discussões e reprovações, principalmente para evitar que criticassem o desmazelo da minha mãe, deixava que me levassem o corpo, que pensassem que me educavam, que acreditassem que me dobrariam a um quotidiano. Mas a minha cabeça não era assim tão domesticável. Se era preciso entregar o corpo ao manifesto por umas horas, assim faria, e depois havia de fugir pela primeira oportunidade.

Esconder-me num dos cantos da casa a ler, conversar com os bichos, deixar-me desafiar pela perícia física do meu irmão e tentar subir árvores e pular muros.

A senhora que eu seria havia de saber montar uma fisga na perfeição, construir uma joeira, trepar um muro de forma irrepreensível, meter os dois dedos nos lábios e assobiar tanto que se ouvisse num outro mundo.

A senhora que eu seria havia de ser eficaz na arte das escondidas, veloz na corrida, saber exatamente onde apanhar o vento no cabelo para ser livre.

Sim, eu estava a aprender a ser uma senhora, mesmo que essa aprendizagem se desdobrasse entre o que esperavam de mim e o que havia de conquistar sozinha.

Era um bicho de trazer por casa, mas com a alma por fora da pele. E isso era quanto bastava para aprender o mundo e para fazê-lo um lugar de liberdade. Assim tão certo como os dias de sol ou de chuva, que não havia forma de errar a vida e o passo na casa e fora dela.

Também havia de aprender aquela dor fina e funda de escolher. Mas isso seria mais tarde, muito mais tarde. Porque a aprendizagem é longa e dura uma eternidade. É daqui ao infinito e mais além.