A sopa de Albuquerque

As políticas sociais numa região como a nossa, onde o desemprego é o mais elevado do país, muitos jovens emigram e os mais velhos tornam-se eternos desempregados, são fundamentais para garantir dignidade às famílias, para que diariamente tenham algo na mesa, cuidados de saúde básicos e educação com qualidade.

Na apresentação do núcleo regional da Madeira, da Rede Europeia Anti-Pobreza, o seu Presidente, Padre Jardim Moreira, afirmou que “a pobreza não tem cor, nem bandeira”, após ter referido alguns números sobre esse flagelo, que coloca a região na cauda do país, fazendo-nos questionar sobre qual o papel dos longos e perpétuos governos do PSD nessa área.

Como resposta, a Secretária Regional das Casas do Povo, fez questão de o contrariar, afirmando que o Governo Regional tem cor política e que foi o próprio a avançar com a parceria, para tentar perceber a realidade da pobreza da Madeira.

Tem razão, Sra. Secretária, o Governo tem cor política e é precisamente essa cor laranja, a responsável pela pobreza que a Senhora desconhece, que a Senhora tutela. Reforço, a pobreza que a Senhora desconhece. Vive em que mundo? Se não conhece a realidade, como pode ser capaz de exercer as suas funções? Como é possível tomar medidas, preparar o futuro, inverter essa situação, se ao fim de 45 anos de democracia, não conhecem a realidade de algo tão importante como os níveis da nossa pobreza.

Governar é muito mais do que fazer umas inaugurações, umas visitas às associações que compõem a teia do governo, visitas a instituições onde depositam pessoas, com o intuito de manipulá-las com meras ofertas avulso. Veja-se a instrução que o Presidente do Governo Regional deu recentemente à sua Secretária ignorante numa visita a uma dessas instituições, assegure-lhes “pelo menos uma sopa”. É clara a visão do governo, o assistencialismo como resposta a problemas estruturais.

Sr. Presidente, essa sopa que engana a fome, é a mesma que alimenta a pobreza.

A pobreza não tem cor, sim é verdade, a incompetência de não conseguir inverter essa realidade sim, tem cor, a mesma cor de sempre.

É certo que a economia melhorou qualquer coisa, há menos desemprego, mas a precariedade prevalece, não sendo por isso estrutural para que muitas famílias consigam sair do marasmo que atravessam. É necessário criar mais empregos estáveis, de longa duração. Os madeirenses estão fartos de programas de emprego, de estágios, de mecanismos que camuflam esses números e que apenas proporcionam às famílias, rendimentos abaixo do salário mínimo.

É preciso dar melhor educação, mais educação, combater o abandono escolar, capacitar as nossas gentes, para que dependam de si próprias, para que não tenham de andar de mão estendida, à caça do apoio, da esmola, da sopinha que o Sr. Presidente quer dar. É preciso dar dignidade às pessoas, fazê-las sentir que fazem parte de uma sociedade dinâmica, positiva, progressista, fazê-las sentir que são úteis, que não são um fardo.

É impossível dissociar as políticas sociais da maioria das áreas de governação. É preciso melhor educação, mais cultura, uma economia forte e sustentada.

Os desafios pela frente são enormes, a necessidade de mudar as políticas da região é imperiosa, pois os últimos 45 anos provaram a incapacidade de quem há muito deixou de pensar no futuro. Perdeu a estratégia, perdeu o rumo.