O Citroen do Tio Rogério

Aos domingos, depois do almoço, lá o tio Rogério tirava o seu Citroen [daqueles que tinham um mecanismo para subir a dianteira, antes de começar a andar] da garagem e, com um pano na mão, dava os últimos retoques antes de arrancar.

Não me lembro dos caminhos, mas sei que inevitavelmente íamos dar à Portela. As fotos, guardadas lá em casa, onde ora estou de vestido colorido e sandálias à inglesa, ora de botas de atanado e barrete de orelhas, não me deixam mentir. Com sol, com nevoeiro, com chuva, ali estou retratada sempre no meio dos novelos frondosos, a sorrir para a polaroid [que herdei].

Depois de tomarmos qualquer coisa no bar, eu e a minha tia, íamos às compras. Naqueles tempos, uma série de vendilhões montavam a sua banca, curva acima, dos dois lados, e nós aproveitávamos para comprar pão, couves, espigos [no tempo deles] e tremoços. Os melhores tremoços do mundo, que eu, obviamente, não podia trincar dentro do carro.

​Quando a tarde já galgava, o regresso, fazia-se, de modo alternado, via Santo da Serra ou via Ribeira de Machico. Neste caso, o meu preferido, dava direito a mais uma paragem em frente à pista do aeroporto. O tio Rogério metia o Citroen, ao lado de tantos outros carros também ali estacionados e ficamos à espera que algum avião aterrasse ou levantasse. Claro que aqui, já eu dava cabo de metade dos tremoços e ficava numa aflição sempre que olhava para o saco e pensava: Ooh, tenho de deixar alguns para os meus avós que ficaram em casa.

Assim que tínhamos a dose certa de aviões a chegar e a sair, era tempo de regressar. Às vezes, sei que adormecia, perdida talvez numa qualquer viagem, outras vezes, já quase a chegar a casa, o Tio dizia: anda! Não era preciso repetir. Eu saltava para o seu colo e “guiava” o Citroen até à garagem. Depois, e de saco de tremoços nas mãos, já quentes e quase no fim, entrava em casa e fazia o relato do passeio de Domingo aos meus avós. Era sempre igual. Mas eles ouviam-me sempre [e fingiam que comiam os tremoços].