Obriguei uma anona a amadurecer

A minha relação com a fruta e demais produtos da terra é especial. Para quem anda distraído com coisas mais importantes, tais como… a vida, eu sou pontassolense, nascida (faz de conta) e criada num ambiente rural com tudo o de bom e de mau que tal realidade implica.

Um dos benefícios é ter, desde sempre, árvores de fruto com os ditos à mão de colher. Quando termino o almoço saio à caça! Sim, eu sei que se caçam animais, mas atualmente até as uvas têm bicho, pelo que se aplica!

Quando era mais nova (a modos que a semana passada), fazia competição com o meu irmão para ver quem comia o primeiro damasco da época, que é como quem diz: quem conseguia o bilhete para a antestreia. Tinha por hábito escrever nos ditos, a esferográfica, a palavra “RESERVADO”, mas não servia de nada, ou fazia plantão num saco-cama, junto ao tronco, ou ficava a saber que a tinta, para ele, não era tóxica, visto que nem os lavava. Nem espetar um aviso numa cana-vieira a dizer: “Tem veneno”, com uma caveira por baixo servia, porque a caveira estava tão mal feita que não poderia ter sido mais ninguém a fazê-la…

Desde tempos imemoriais que como fruta do nosso pomar. Quando era buzica tinha as mordomias normais para minis, como: descascada e cortada, sem caroço e sem troço, agora estou por minha conta.

E é assim de janeiro a janeiro!

Começamos com as anonas. Não sendo o meu fruto preferido, não é de recusar. Como se dizia na escola: “qual é a coisa, qual é ela que o pai é verde, a mãe é branca e os filhos são pretos? A anona! E qual a coisa qual é ela que obriga a mãe a envelhecer subitamente, mesmo que ainda esteja na adolescência? Eu! Ainda a semana passada fui à árvore e andei no apalpanço. Apertei todas as que consegui deitar a mão, nada… tudo mais duro que o pessoal em janeiro… até que encontrei uma já a dar de si! Coitada… só descansei depois de amolecê-la, foram tantas as amassadelas à moda quiroprática que o que por amadurecer estava maduro ficou e lá vai obra!

Depois vem a primavera e as nêsperas. Tinha uma vizinha a quem os habitantes chamavam “Francelha” (não sei, não me perguntem) que era tão forreta, mas tão avarenta que para ninguém lhe colher as nêsperas (salvo seja) foi desbastando os ramos inferiores até a árvore ficar com um corte de cabelo à tigela e nem a própria conseguir lá chegar. Mas, eu também tenho nespereira. É com muito gosto que atravesso de chinelos e collants a terra mole, cavada de fresco a “imigalhar” os regos e a ficar com os “rojetes” cheios de amores de burro rumo às amarelinhas. Entra uma nêspera inteira, saem três caroços de rajada, boca fora.

Pouco depois chegam os pêssegos. Uma vez esqueci a marmita na cidade e não tinha o que comer. Quer dizer… tinha! Oito pêssegos suculentos! Nesse dia fui à nutricionista que, escandalizada com a ementa, chamou a atenção para o facto de não haver proteína nesse menu, ao que retorqui: “Oh Sra. Dra., estava com tanta fome que até os lagartos marcharam, não se preocupe porque incluiu proteína.”

Mas, a melhor, o amor para toda a vida, é mesmo a cana-de-açúcar. Por algum motivo chamavam-me o engenho do Lombo de São João. Desde criança que descasco cana-de-açúcar com uma destreza de fazer inveja ao homem que, de navalhinha no bolso descasca tudo o que encontra pelo caminho, palita os dentes e ainda corta as unhas do gato. Quem passava pelo caminho lá de casa, amiúde, via cascas compridas pelo ar e daí a pouco, para quem se demorasse um nadinha, sabugos por todo o lado.

Ainda hoje não enjeito. Já parti um dente a chupar cana. Estava com a minha mãe e, não obstante a cana tivesse um risquinho vermelho a meio, sinal de velhice e dureza, quis aproveitar e mordi a berma, só ouvi: taccccc, olhei amedrontada para a minha mãe (que me acompanhava) com a boca entreaberta e a resposta que levei foi um grito! Foi quase pela base, da frente e com um julgamento daí a meia hora! Lembro-me de ligar ao Tribunal a informar, genuinamente aflita: “Ezzsxxxtou a me zxentir mal, tenho de ir aizurxêncis” para justificar a falta. Só não disse qual a urgência! Andei uns dois meses com dentes provisórios, mas é graças àquela cana que fiquei com este sorriso maravilhoso! E ao André também!

Portanto, conterrâneos e forasteiros se não sabeis dos prazeres de chupar cana, nomeadamente: se babar como um camelo por não caber mais cana na boca; chupar bocados com sangue porque a faca falhou; aproveitar e chupar até a raiz, porque é mais doce e lamber-se a terra dos dedos ou por fim, mas não menos importante: dar um genuíno arroto de cana-de-açúcar, o autêntico, não gaseificado, doce e sincero arroto, não sabeis o que perdeis.