Desenvolver a investigação

Um dos debates mais relevantes na atualidade na Europa diz respeito às mudanças trazidas pela tecnologia do digital e às adaptações para o emprego do futuro. Conexo com este desafio, torna-se pertinente constatar as dificuldades dos sistemas de ensino em se ajustarem devidamente e com a velocidade necessária aquelas mudanças.

Na realidade, há muito que a transversalidade social entre os “mundos” da educação e do trabalho são uma evidência. Isto mesmo é percetível no recente Relatório do PE produzido na Comissão da Cultura e Educação. As pertinentes conclusões deste documento remete-nos no sentido, em que apesar do potencial do digital em termos de promoção e reforço da aprendizagem, o impacto das tecnologias digitais na própria educação é limitado. Igual preocupação é manifestada pelo facto de os investimentos nas denominadas TIC, nas escolas, não terem dado ainda origem à tão ambicionada transformação das práticas educativas. Acresce ainda, que a falta de ligação entre as várias escolas e nos vários Estados da UE constitui também, per se, um impacto negativo na formação das competências digitais transversais.

Torna-se assim, paradigmático refletir, no sentido de saber se não devemos apostar num maior investimento na investigação e inovação, porque este é claramente um investimento no futuro. De resto, se pretendemos competir num mundo global e exigente, e assegurar, não desvalorizando o nosso modelo de sociedade e de Estado social, as conquistas até ao presente alcançadas mantendo ainda os níveis de empregabilidade e de qualidade do trabalho, esta é uma aposta fundamental. Os Estados da UE precisam de preparar melhor os seus cidadãos para o mercado de trabalho. Este encontra-se numa permanente mutação e diariamente desafiado por inúmeras convulsões, como os recentes movimentos na Europa - os chamados “coletes amarelos” traz à evidência. Estes desafios colocam pois, a imperiosa necessidade de esta cidadania se manter ativa em sociedades europeias, o mais diversificadas cultural e socialmente -mais móveis, globais e, agora, também digitais. Estima-se, que cerca de metade dos atuais postos de trabalho desaparecerão durante os próximos 25 anos e que no seu lugar surgirão novas profissões, que requerem competências digitais avançadas. Não olvidemos que os alunos que agora iniciam os seus estudos só entrarão, em média, no mercado de trabalho, após conclusão desses mesmos estudos, na década de 2030 e permanecerão no mercado laboral até 2060/70. Se a dificuldade é prever com esta antecedência as necessidades desse mesmo mercado, mais ainda é saber-se que mudanças tecnológicas estão a ocorrer e a que ritmo.

Urge assim, apostar no investimento na investigação e na inovação. Na UE, agora que se aproximam eleições, talvez se deva exigir uma simplificação, uma maior agilidade e, nos casos dos Fundos, que estes cheguem às empresas e aos cidadãos mais depressa do que atualmente.

Por outro lado, falando também em valores alocados a estas áreas, a PORDATA assinala por exemplo, que em 2017 os Estados da UE investiram em percentagem do PIB 2,07%. Longe fica assim, para já, o objetivo colocado pela própria UE de superar em 2020 a percentagem de 3% do PIB (apenas a Suécia com 3,33% e a Áustria 3,16%, já superam largamente esta meta). Em Portugal, temos atualmente uns modestos 1,32% do PIB. Na RAM e de acordo com a DREM, o peso desta despesa no PIB foi de apenas 0,31% em 2016.

Estamos em crer, que a preparação geracional dos alunos tem de assentar em cenários que os prepare para a mudança e, quiçá, para uma antecipação dessa mesma mudança. Tal faz-se apostando em investigação, inovação e desenvolvimento. Acresce mesmo, que qualquer discussão sobre o futuro do trabalho deve alinhar-se de perto com uma discussão sobre o futuro dos currículos escolares. Aqui, a necessidade dos Estados refletirem com base em estudos, que devem mesmo ser incentivados e financiados, ao nível europeu e nacional, mas também regional e local, sobre a transformação dos conteúdos, das práticas pedagógicas e metodologias de ensino, tendo em vista a inovação, parece-nos crucial. Matérias, entre outras, como a resolução prática de problemas, espírito criativo e crítico e trabalho colaborativo, são hoje competências que as empresas mais buscam nos seus ativos. Em que medida, as nossas escolas tem espaço para dedicar-se a estas valências?