Salvar as farmácias

As Farmácias são “o braço longo do SNS” dizia António Arnaut pai do SNS, e de facto conseguimos concretizar essa ideia facilmente, observemos que a distribuição das farmácias é realizada atendendo a critérios legais de instalação geo-demográficos, o que quer dizer que a assistência Farmacêutica e acessibilidade dos medicamentos é equitativa em todo o território Português, ora na prática este tecido empresarial privado desempenha as funções de serviço público, não onerando o estado e trazendo ganhos exponenciais em Saúde pois trabalha na prevenção da doença e na promoção de Saúde e de hábitos saudáveis sempre num contexto de proximidade e fácil acessibilidade com um cunho técnico cientifico elevado pois é obrigatório legalmente a presença de um Farmacêutico em permanência na farmácia, sendo que a média apresentada pelas farmácias portuguesas é de 3 Farmacêuticos por Farmácia (um dos melhores rácios na Europa e no Mundo), estes ganhos traduzem-se directamente numa população mais saudável e logo menores despesas em saúde para o estado, mas também numa diminuição do absentismo laboral e baixa produtividade (pela doença) com óbvios ganhos para as empresas, aqui temos de focar a intervenção do Farmacêutico no plano do seguimento farmacoterapêutico, aconselhamento farmacoterapêutico e ensino de utilização de dispositivos (ex: inaladores) e literacia em Saúde, pois sabemos que de acordo com dados da OMS 50% das pessoas não tomam correctamente os medicamentos o que leva a diminuição da efectividade dos mesmos.

Aliado a tudo isto temos a percepção da população para a relevância da Farmácia e acima de tudo do Farmacêutico no contexto da gestão da sua Saúde e com um nível de satisfação elevado como demonstrado pelo inquérito realizado pela Universidade Católica em que demonstrou que 96% dos portugueses se encontravam satisfeitos com a Farmácia enquanto local de prestação de cuidados de Saúde, sendo o local de prestação com nível de satisfação mais elevado. Infelizmente e apesar deste quadro de positividade e aporte substantivo em Saúde para a população, o sector atravessa uma crise sem par (de notar que a crise que assolou o país ainda subsiste, apesar de disfarçado numa euforia eleitoralista e exposição da comunicação social de um “clima económico” favorável a constatação da realidade é oposta, estamos um pouco melhor mas ainda bem dentro da tempestade). Por tal facto a ANF promove uma petição pública à Assembleia da República a solicitar a aprovação de um programa legislativo direccionado em exclusivo ao sector, por forma a concretizar acima de tudo “um critério de remuneração igual para todos os agentes do sector do medicamento, que permita uma remuneração justa e adequada do serviço farmacêutico”. Atendamos à realidade exposta pela ANF: 675 farmácias enfrentam processos de penhora e insolvência; As farmácias têm prejuízo para garantirem a dispensa de medicamentos comparticipados pelo Estado (Um estudo da Universidade de Aveiro mostra que, em 2016, duas em cada três farmácias tiveram resultados negativos de 3.836€ com a dispensa de medicamentos comparticipados); as mais pequenas, que servem populações mais isoladas e envelhecidas, não estão a conseguir sobreviver; A Troika preconizava uma redução de 50 milhões de euros nas margens de farmácias e distribuidores. As medidas de austeridade aplicadas pelos governos levaram a um corte de 284 milhões de euros.

Na realidade a mudança de paradigma assistencial no sector é indispensável, primeiro é necessário analisar de forma rigorosa o problema segundo a máxima de Heródoto “Pensar o passado para compreender o presente e idealizar o futuro”, verificar o que de bom fizemos e manter, e verificar como melhorar, para isso fazer benchmarking com o sector noutros países e contextos e sorver o que de positivo lá se faz e que representa uma mais-valia para a população, (ex como no Canadá e Nova Zelândia testes e dispensa de antibióticos para infecções urinárias que são a segunda causa mais frequente de infecções na comunidade e razão de ida à urgência; programas de cessação tabágica como ocorre em 39 outros países, etc), associado a uma revalorização do Farmacêutico, com diferenciação e distinção laboral, como acontece nos países anglo-saxónicos, com uma posição interventiva e reconhecida sendo a autoridade máxima dentro da farmácia no que aos medicamentos/dispositivos médicos/produtos de saúde diz respeito, com papel interventivo e independente, com objectivo último de servir a população, isto obviamente acompanhado com uma valorização salarial em conformidade com a sua competência (neste momento os salários baixos, as pressões e o contexto de luto constante do sector, conduzem a uma desmotivação do profissional).

Por tudo isto, sou signatário, temos de Salvar as Farmácias, Cumprir o SNS e Valorizar o Farmacêutico (sem este não existiriam Farmácias).