O edifício amarelo

Da cidade avista-se ao longe o edifício amarelo, aquele onde quase ninguém quer entrar, não pela cor, mas pelo simbolismo - um simbolismo que nos remete às brumas, numa valência universal de que nada é positivo.

Pelos corredores circulam pessoas vestidas de azul, outras de branco e ainda algumas de amarelo. A linguagem corporal de todas elas manifesta um contributo, lada a lado, de equipas que colaboram num modelo sistémico de intervenção.

Durante todo aquele tempo que ali permaneci, como acompanhante, vi nos rostos daquelas pessoas espelhado a esperança que EU procurava… e o edifício amarelo, representava apenas uma permanência temporária necessária à cura. Rapidamente as criticas e os elogios apareciam de mãos dadas, a revolta e a esperança conviviam unidas a cada dia, que mais não era uma eternidade. Todos os dias levava para o edifício amarelo a mochila cheia do que para mim era o essencial, Amor para dar. Parecia sempre tão pouco perante a infinidade do sofrimento, era um amor “egoísta”, um amor que impedia de ver os limites do momento.

O duelo da vida e da morte estava ali diante dos meus olhos e o meu pranto, egoísta de dor, ecoava pelos corredores silenciosos. O amor “egoísta” ficou a meio dos dois, queria a vida, mesmo sabendo dos limites da morte. As paredes gemiam por não conseguirem falar, as camas transpiravam de impaciência, e a cama 19, essa, jamais vou esquecer - onde a dor, a esperança, a FÉ e o querer seguir em frente com a vida estiveram ali, em luta durante 15 dias, até ao último minuto.

Falar da impossibilidade da cura e da possibilidade da morte, era, para mim, tabu. Pensei que nunca nada lhe aconteceria, porque as mães não podem morrer, são imortais, são as nossas heroínas da pelicula do filme que é a nossa passagem pela vida. Concedi-lhe a imortalidade que penso todos os filhos concedem às mães.

Mas o relógio parou. A máquina parou. Fez-se silêncio na cama 19. As cortinas fecharam-se. E no edifício amarelo ouviam-se apenas gritos de dor.

Lá, estiveram batas brancas cheias de amor e carinho que CUIDARAM, batas azuis que acarinharam, batas amarelas que tinham sempre uma palavra voluntária de solidariedade para dar. Também estiveram lá algumas batas brancas, sem ternura, sem cuidado.

No edifício amarelo há vida e há morte, há duelos entre eles e só pode haver um vencedor.

Há um início da vida pelo nascimento e fica a incógnita sobre o fim, sobre o que há para além da morte.

Ela decidiu partir, mesmo querendo ficar.

Deixou-nos a aprendizagem da RESILIÊNCIA, do AMOR e da FÉ.

As MÃES, mesmo partindo sem nós querermos, estarão SEMPRE presentes.

Um bem-haja a todos os cuidadores, não importa se a bata é azul, branca ou amarela; não importa a cor do edifício, importa os cuidados de saúde que nele são prestados, Este era amarelo.