Chipre, uma ilha de várias culturas

No domingo passado referi-me a Chipre considerando principalmente a sua evangelização por São Paulo e São Barnabé, tendo como ajudante o jovem Marcos, sobrinho de Barnabé. Chipre, porém, é conhecida desde o período neolítico, cerca do sétimo milénio a.C., sendo a zona de Choirokoitia até ao quarto milénio, um dos mais importantes portos do Mediterrâneo oriental.

Segundo a mitologia grega, foi nas águas calmas e azuladas da costa junto a Pafos que nasceu Afrodite, a deusa da beleza e do amor, sendo o seu templo visitado pelos povos do próximo oriente. O parque arqueológico de Pafos apresenta monumentos desde os tempos pré-históricos até à Idade Média, contendo a maior parte a cidade grega e romana, fazendo parte do Património Mundial da Unesco.

Em Nicósia, a atual capital, encontra-se o maior e mais antigo Museu Arqueológico de Chipre; quanto aos ícones sacros, todas as igrejas antigas são riquíssimas e revestidas destas pinturas sagradas, sendo as mais notáveis as do Museu de Nicósia, as do mosteiro de Neophitos do século XII, algumas das pequenas igrejas e mosteiros estão pintados com frescos e classificados como Património da humanidade.

Para além de várias e belas praias e, até um lago salgado, cujo sal se fazia sentir entre as populações, reza uma tradição que São Lázaro, perseguido em Jerusalém por ser uma testemunha do grande milagre de Jesus que o chamou à vida após quatro dias sepultado num túmulo, para fugir à perseguição veio para Chipre onde se encontrou com São Paulo, que o sagrou bispo de Lanarca, tendo transformado um lago de água doce em mar salgado, a pedido do povo desta cidade. A ilha de Chipre conta também com uma alta montanha com neve e 1952 metros de altura, tendo o pico mais alto o nome mítico de Olimpo, como na Grécia, morada dos deuses pagãos.

Chipre é também uma ilha dividida, enquanto na Europa em 1989 foi demolido o muro de Berlim, em Chipre dividiu-se a capital, que foi depois tomada por forças turcas, que nunca mais deixaram a ilha, causando um pesadelo, raiva e dor contínua para os chipriotas que contam com uma zona com barricadas, arame farpado, sacos de areia, muros e portões inestéticos a dividir Nicósia ao meio. Tudo começou com a declaração da independência de Chipre quando se separou da mãe Grécia, tomando esta decisão o mui conhecido nessa época Arcebispo Macarios III Neokilis Kyriazis. Após vários anos como colónia britânica, cuja marca ainda se nota hoje na forma de condução pela esquerda, seguiram-se diversos conflitos que levaram a Turquia a invadir a ilha em 1974 e a proclamar a independência da” República Turca do Norte de Chipre” em 1983, apenas reconhecida pela Turquia. A ONU mantem uma força de paz e patrulha a fronteira conhecida como “linha verde.”

Esta divisão constitui ainda hoje um trauma à população de Chipre que vê com raiva e desgosto a Catedral da Aghia Sophia do ano 1208 e estilo gótico, privada de estátuas de santos e com minarete em lugar da primitiva torre. O mesmo acontece na cidade romana de Salamina com o Fórum, teatro, anfiteatro, basílica de São Barnabé abandonada, mas ainda com alguns ícones mal cuidados nas paredes para atrair turistas, que não faltam. Mais ao sul, em Famagusta, situação semelhante, acontece dento dos muros dos “venecianos,” com basílica gótica transformada em mesquita e as igrejas, onde eram coroados os reis de Jerusalém, ao abandono.

Chipre continua a atrair numerosos turistas, principalmente do Reino Unido que, ainda hoje, mantem dois enclaves; é também lugar de eleição para a Rússia, Europa de Leste e norte da Europa que escolhem as praias do Sul para férias e banhos. Os portos da ilha são também lugares importantes para os cruzeiros que sulcam as águas calmas do Mediterrâneo.

Ao passar por tantos mosteiros, igrejas, grutas de eremita, o que mais me impressionou foi o sentido de vida de tantos monges, anacoretas, mártires, missionários que por aqui viveram e se santificaram e que pintados nos ícones, com os olhos muito abertos, por ocasião da eucaristia dominical estão junto às crianças, fiéis, celebrantes, mostrando pertencerem à mesma família dos filhos de Deus. De facto, a nossa vida está escrita no coração de Deus e ninguém, nem mesmo a morte, nos pode impedir de viver, não por causa dos nossos méritos, mas porque Deus é Amor infinito. Escreve São Paulo aos sábios pagãos de Atenas que “é na divindade que temos a vida, o movimento e o ser” ( A.Ap. 17,28).Se os defuntos estão em Deus, estão também em nossa companhia, participam no amor e caridade de Deus por todo o universo. Os santos e todos os que estão em Deus vivem naqueles que ajudaram a viver santamente. É a comunhão dos santos que, só em Deus, pode acontecer. A morte física não é a última palavra, nem a penúltima sobre a existência humana, mas a fé na ressurreição de Jesus Cristo.