A doença da política, na saúde

Há dois traços que distinguem o avanço civilizacional dos últimos anos.

O modo como a sociedade passou a encarar a violência contra as mulheres e a explosão de antigos segredos de práticas sexuais desviantes, no seio da Igreja Católica. Isso sim. Dois temas, ambos resultantes da estrutura machista da cultura judaico-cristã, que invadiram a opinião pública ocidental, hoje liberta de tabus milenares. Aquilo que sobreviveu na sombra da intimidade, durante séculos, escondido dos olhares públicos, é agora escrutinado e combatido, sem tréguas, à luz dos direitos e garantias individuais, recentemente conquistados. Mas, apesar de serem assuntos dominantes na sociedade portuguesa, não é disso que mais se fala no espaço público madeirense.

Por interesse propositadamente político, a agenda mediática regional é hoje inundada, prioritariamente, com notícias sobre o estado da saúde na Madeira. Algumas baseadas na verdade, mas muitas, mesmo muitas, sem dados comparativos, com graves omissões, com distorções, com intencionais conjurações. É, de facto, hilariante como se está, sistematicamente, a depreciar o maior e melhor sistema público da nossa democracia e da autonomia madeirense. Apoucando as suas estruturas e atingindo os seus profissionais. Que o sistema tem falhas e insuficiências. Isso tem. Temos de reconhecer. E sabemos que são semelhantes e têm as mesmas causas que no sistema de saúde nacional e até da maior parte dos países europeus. Mas que seja o bombo da festa da oposição, que se aproveita da sensibilidade social de cada problema, isso é censurável. Quem, como eu, ainda é do tempo de apenas um médico para cada concelho e que viu, em poucas décadas, todo o progresso feito, este burburinho, este ruído, esta persistente negação da enorme qualidade e quantidade de oferta de serviços públicos de saúde na Região, é, para além de injusta, um sinal de que, em política o “vale tudo para ganhar e chegar ao poder” continua a sobrepor-se à razão, à verdade e ao bom senso. Por falta de outros argumentos e projetos, as falhas no SESARAM surgem como uma tábua de salvação política para a oposição ao governo, esta cada vez mais embaraçada com questões internas, com o aproximar das eleições, como de costume. Para os que teimam em afirmar que a saúde na Região está doente, eu diria, que, graças a eles, doente está, sim, o discurso político sobre a saúde. Esta cegueira deitou um manto de suspeição que é forçoso contrariar. Pela saúde da nossa saúde.

Mas, o mais grave, é que essa narrativa negativista seja promovida pelos socialistas regionais que dizem estar preparados para governar. Mas será que queremos voltar a ter na Região o que se passou no Continente? Onde, perante as exigências do SNS, Victor Gaspar do PSD dizia: “não há dinheiro – qual a palavra que não entendem?” e agora temos o ministro Mário Centeno do PS que diz: “não há qualquer margem para acomodar novos aumentos de despesa”. É isso que os madeirenses querem para a Região? Um trocadilho de palavras para ficar tudo na mesma? Ou pior. É essa a solução? Hoje criticar e amanhã se desculpar com as três palavras fatais: “não há dinheiro”.