Heróis a menos, húbris a mais

Independentemente da época ou do contexto, o conceito de heroicidade sempre girou à volta de um arquétipo, uma imagem primordial, da qual não se podiam dissociar ideais nobres e altruístas. O herói defendia valores, como a liberdade, a justiça, a igualdade, a paz. Os seus adversários personificavam habitualmente a negação desses preceitos, sem que se descortinassem zonas de sombra ou dualidades de carácter. Era o bem contra o mal, e no fim os bons ganhavam sempre.

A ambiguidade dos heróis ganhou novos contornos ao longo dos séculos, o que decorreu da sua progressiva humanização: dos semi-deuses bafejados pela protecção de uma qualquer figura divina e portadores de capacidades ou poderes superlativos (veja-se a reciclagem no universo Marvel e quejandos), passou-se gradualmente para o ser humano aparentemente banal, que faz das fraquezas forças e da coragem arma para alcançar feitos extraordinários.

Por natureza, o herói, mesmo o dos tempos modernos, corporiza o melhor da natureza humana. É destemido, corajoso, determinado, inquebrantável, mas até mesmo quando age movido por vingança, esta tem um respaldo ético. Ou seja, o herói é virtuoso, as suas motivações são moralmente aceitáveis, mesmo quando ilícitas. Além disso, está sempre disposto a morrer (literal ou figurativamente) por aquilo em que acredita. O martírio, ou, se quisermos, a aceitação do martírio como um fim que justifica o sacrifício, é a fibra de que os genuínos heróis são feitos, a centelha de altruísmo que lhes garante a imortalidade.

Depois, há a húbris…

A húbris é tudo o que extravasa a medida: a confiança inconsequente, o orgulho exacerbado, a ambição desenfreada, a presunção, a arrogância, a insolência, o desprezo pelo espaço alheio, o descontrolo sobre os próprios impulsos, a virulência, a irracionalidade, o desequilíbrio…

No globalizado mundo em que vamos sobrevivendo, com diversos graus de anestesiamento (consciências incluídas), é notória a crescente dificuldade em destrinçar o herói genuíno do farsante inútil.

Há (sempre houve) heróis anónimos: aqueles que deram a vida por uma causa, sem que os livros de história tenham logrado registar-lhes a identidade e endereçar-lhes o reconhecimento póstumo. Mas, pelo contrário, não há anónimos heróis. Desenganem-se, pois, aqueles que na moderna arena desse Circo Global a que se convencionou chamar redes sociais, se arvoram em gladiadores e paladinos… ocultos. Não são nada, valem zero!

Só merece o estatuto de corajoso aquele que revela a face e dá o peito às balas, predispondo-se ao eventual martírio. O anonimato é, apenas e só, uma confortável covardia, que não permite contraditório nem admite resposta, que nem ao pequeno egoísmo do reconhecimento se sujeita. No anonimato não há heroicidade, tão somente o pestilento fel da húbris.

Para além destes vermes sem rosto, proliferam neste Circo (talvez por se imaginarem num qualquer Olimpo virtual) os heróis fajutos. Nada têm de que se orgulhar, nenhumas batalhas travaram em prol do bem comum, o seu combustível é o ódio e o ressabiamento, o seu objectivo último é o ganho pessoal, quando não a vingança pura. Lamentavelmente, não é essa a imagem que o espelho lhes devolve; mais tristemente ainda, não é assim que muita gente os descortina. A escassez de referências e de exemplos, das mais altas às mais básicas esferas do poder, tolhem o discernimento, propiciando o florescimento destes heróis de pacotilha, que saltam debaixo de qualquer pedregulho, mesmo quando justamente pontapeados.

Culpas? De todos e cada um de nós, naturalmente.

Consequência também da “Síndroma de Húbris” (expressão cunhada por David Owen e Jonathan Davidson), mais conhecida como “Doença do Poder”. Em traços largos, é uma patologia que se caracteriza por: perda de contacto com a realidade; predisposição para ver a política como um espaço de auto-glorificação; preocupação desmesurada com a imagem e a apresentação; discurso messiânico; auto-referenciação como ‘nós’ (em tom majestático); auto-confiança exacerbada; desdém perante conselhos e críticas, entre outras “virtudes” que aqui já não cabem.

Ainda bem que não conheço ninguém assim…