A imbecilização da sociedade

O facilitismo, o igualitarismo, a mediocridade e a ignorância estão a corroer o país e o orgulho da nação.

Estou-me a borrifar para o politicamente correcto e confesso que sinto falta de um tempo em que o conhecimento advinha da escola e havia uns tipos que empinavam calhamaços em busca do saber, e com isso se edificavam carreiras e profissões, sem um auto-serviço Dr. Google que tudo ensina, sem qualquer crivo ou autenticação. Em que não se passava de ano sem saber, só para encher estatísticas, em que ao título ou à graduação correspondia alguma sapiência e os cábulas ardilosos tinham dificuldade em singrar. Um tempo que apostava nos patamares intermédios do conhecimento, e as escolas dos ofícios formavam para o mercado de trabalho os que não seguiam para doutores e lhes dava ferramentas para, com brio, fazerem carreira no comércio, nos serviços, onde se notabilizavam sem complexos, respeitados trabalhadores. Um tempo em que havia na sociedade estruturas piramidais e cada macaco estava no seu galho, como soe dizer-se, em lugar de uma tresloucada igualização, onde todos mandam e ninguém manda. Numa espécie de bolonhesa académica, tudo se transformou em licenciatura, numa teia mercantil de culto do diploma, onde se produz uma imensidão de novos ignorantes e doutores iletrados que pouco préstimo têm para o trabalho produtivo, mas onde se exige a garantia de igualdade de armas para todos, esfumando-se a diferenciação. Garantir as condições básicas de livre desenvolvimento da personalidade humana é uma coisa, igualizar uma sociedade, nivelando por baixo, é coisa diversa.

Dantes escolhia-se os ministros pela sua estaleca académica, alguns que criaram reformas para décadas. Hoje, é a esperteza saloia que vai para os cargos estudar a matéria que desconhece e é tudo engendrado para quatro anos, num ímpeto reformador de capoeira e qualquer espantalho falante se abalança a debitar asneiras.

Sinto falta de um tempo em que o domínio da Pátria, a nossa língua, era garantido pela escola, mínima e transversalmente, a todos os ramos do saber. Hoje, onde menos devia, lá está escarrapachado, sem pudor, o erro ortográfico, a calinada de sintaxe, o estrangeirismo apressado a sobrepor-se à riqueza da pátria maltratada, numa exaltação pretensiosa. Em que as televisões procuravam uma função pedagógica e de educação, os programas de entretenimento que transmitiam cultura geral, a banda desenhada do Granja. Hoje, a aposta é potenciar a estupidificação e a mediocridade, a sua visibilidade, a sua pulsão ilimitada, satisfazendo alarvidades sem conteúdo edificante, algumas a roçar a violação da dignidade humana, a troco de uns patacos. Um tempo em que se lia, em que os cafés animavam debates, tertúlias e os mercados faziam sentir o pulsar da população iletrada, agora atropelado pela compulsão dos telemóveis, onde quem não precisa de estar contactável se oferece em contacto permanente e por esse poderoso meio de comunicação chamado redes sociais, que dá palco a qualquer ego, sem qualquer utilidade socialmente relevante e onde livremente se vomita a boçalidade, os ódios mesquinhos da ignorância ou o culto estéril de gentes e atitudes.

As massas são velozes na aculturação de modas, como a elegância duvidosa das roupas rasgadas, dos penteados do cocuruto apresilhado como saco de lixo, mas estas almas vanguardistas à vista, nada sabem, não têm opinião, capacidade crítica ou discernimento e são presas fáceis para aproveitamentos.

Respeito as liberdades e o pulsar espontâneo das sociedades, mas repudio esta deriva sem limites da bestialidade. Diz o Papa Francisco que só através da educação o mundo pode ser mudado. Só através do ensino e da educação o Estado poderá estabelecer limites à brutalidade intelectual, os únicos factores libertadores das trevas e geradores da consciência de si, da sua condição social, que permita gerar espírito critico e a capacidade de destrinçar o essencial do acessório, o verdadeiro do sofismado, a liberdade da intoxicação, o transparente da manipulação. A função que os neoliberais pretendem relegar à mão invisível do mercado, e que vem transformando a grandeza civilizacional da velha europa numa devassidão sujeita aos apetites ilimitados da ganância, onde as pessoas e os seus valores imanentes se vão transformando em objectos de venda e lucro.

Uma sociedade tosca, ignorante e imbecilizada é uma sociedade facilmente manipulável por populismos ou extremismos de ódio ou personalismos que terminam em estados ditatoriais ou de musculada prepotência.