Matar saudades

Às vezes descubro-me a refletir sobre expressões que usamos com frequência e que desde sempre ouvimos. Sabemos-lhe o significado e no entanto, analisando-lhe as palavras, descobrimos que não dizem exatamente o que queremos dizer, como é o caso daquela que dá título a esta crónica.

Talvez devamos começar por tentar entender o que é a saudade, o que não é fácil, até porque é possível que todos tenhamos uma forma diferente de a definir. Poetas e prosadores têm tentado fazê-lo ao longo dos séculos em páginas que podemos sempre revisitar. Hoje porém, o que vos proponho é uma reflexão minha e bem prosaica sobre o assunto.

Saudade é algo de muito controverso: um misto de tristeza e de dor, mas também de refrigério para essa mesma dor, causada pela ausência de alguém que, estando longe, está perto. Tão perto que a levamos dentro de nós para onde formos. Também podemos ter vários tipos de saudade. Há a saudade daqueles de quem a separação é definitiva, por terem partido para outro plano existencial. Ficam connosco num cantinho que lhes reservamos e ali os mantemos na sua melhor forma. O tempo vai serenando a dor, ajuda-nos a burilar-lhes a imagem; apagamos-lhes a decrepitude da decadência do fim de vida e convocamo-los à memória vibrantes, alegres e com o que deles mais gostávamos. Lembramos-lhes as palavras, os gestos, os cheiros. Nesta ausência, que sabemos definitiva, guardamo-los com todo o carinho e sorrimos porque o tempo já nos enxugou as lágrimas. É uma saudade que nunca se mata, alimenta-se da memória.

Depois, há a saudade dos que estando acessíveis no mundo físico estão geograficamente distantes. Sofremos a distância e sonhamos o reencontro para “matar as saudades”, dizemos. E, de facto, a chegada traz a alegria e a saudade esvai-se enquanto a presença física durar, enquanto ouvirmos a voz querida, enquanto pudermos desfrutar do abraço, do beijo, da partilha de momentos intensificados pela brevidade que sempre os caracteriza. Esquecemos a saudade, contudo, matá-la, não matamos e, mal a partida se anuncia, ela volta revivificada e mais dolorosa do que antes. E, então, só podemos concluir que, ao invés de a matarmos, alimentámo-la e, de novo, só o tempo permitirá mitigar a dor da separação.

Também podemos ter saudades de uma terra, de um lugar, da casa onde já vivemos. Regressar será um encontro prazeroso, ainda que dolorido, se não for definitivo. Se o for, então sim: morre a saudade, mas possivelmente, nesse mesmo instante, nascerá a saudade pelo lugar que agora se deixou. As pessoas que dividem o tempo das suas vidas por terras diferentes carregam em si uma nostalgia permanente pelo lugar de onde estão ausentes, como é o caso dos emigrantes que parecem pertencer eternamente a dois locais que procuram recriar um no outro. Por exemplo, quando estão no estrangeiro gostam de replicar os costumes, a culinária, o folclore, etc. do país de origem e, quando a ele regressam, não abdicam de replicar os hábitos e tradições com que conviveram na terra que os recebeu, atitudes que não são mais do que uma forma de perpetuar a saudade e não de a matar.

Matar a saudade significaria ser inteiro no lugar onde se está, seria ser indiferente à perda ou à separação dos que fazem ou fizeram parte da nossa vida e isso implicaria ser despojado de humanidade. Poderemos, pois, concluir que matar as saudades é não só impossível como indesejável. Não sentir saudade obrigaria a apagar a memória das memórias que nos constroem. Então, o que fazemos com o intuito de matar a saudade é antes uma forma de a reanimar. A saudade dói, mas gostamos de a ter. Não a matamos, cultivamo-la, ainda que nos reacenda a dor. Controverso? Sim, tal como o é o ser humano.