Senhora do largo

Os que viviam sozinhos eram os que mais curiosidade suscitavam. Na aldeia ainda ninguém tinha definido o conceito de privacidade. Então, os terreiros eram propriedade apenas semiprivada, onde todos apareciam sem avisar.

A vizinha que vinha pedir salsa ou a tia que vinha dar dois dedos de conversa enquanto descascava um punhado de semilhas para o almoço. Era normal começar a confeção da refeição em casa alheia, tão natural como aparecer sem bater à porta. Bastava gritar um ‘Uuuuu’ e ir se aproximando. A mesa estava sempre mais ou menos permanentemente posta, para um café ou um chazinho. E também era comum trazerem o que a terra dava a mais. Deixavam bananas e levavam feijão.

A família era extensa, numa teia de primos e graus de parentesco interminável, e a vizinhança era de casa, com tudo o que isso trazia de bom e mau. Os segredos eram de pouca dura e havia sempre quem se zangasse com o ponto acrescentado ao conto, que às vezes dava má fama a algum. Mas tudo passava. Até a pequena bilhardice caía no esquecimento ou era substituída por outra.

Os homens interrompiam o que estavam a fazer na terra, para chamar um vizinho para um copinho de vinho e os pequenos andavam de casa em casa como se fosse o seu quintal. Ninguém se preocupava muito se tinham comido. Eles lanchavam na casa de uma avó ou comiam uma fruta da que as árvores estavam a dar.

Por isso, quando alguém fugia ao padrão era um desassossego e estranheza. Eram as viúvas e viúvos, as que nunca casaram e ficaram para tias na casa dos pais que deus já tinha levado. O coitadinho que nunca foi bom da cabecinha. A senhora do Largo era a que mais fascinava. Nunca ninguém passava da porta, numa terra onde não havia entradas nem saídas, nem os homens que lá iam dar o dia fora e tratar-lhe das plantações. As bolas que iam parar aos seus vasos de orquídeas ou avencas raramente tinham volta, que ninguém tinha coragem de arriscar pisar aquele pedaço interdito, numa terra de todos e de ninguém. E ela faria queixas aos pais, que a canalha dava-lhe cabo das flores. A curiosidade de espreitar lá para dentro e tentar perceber como seria aquele reduto desconhecido. Um dia, vieram os filhos emigrados e abriram tudo de par em par. Viram a roupa e os pertences da senhora do Largo a encher os caixotes de lixo. Finalmente perceberam como era dentro do lugar interdito. Era solidão, amargura e tristeza. E muitas bolas furadas.