Falta de holofotes

Há dias, fui assistir ao dérbi entre a AD Machico e o CF Caniçal, em futebol. Há muito tempo que não o fazia. Quis contribuir para uma nova onda de apoio ao clube local.

Inseri-me num grupo de jovens, alguns familiares, que têm o nobre objetivo de contribuir para contrariar a tendência nacional de excessivo apoio aos grandes do futebol português que vêm monopolizando a massa lusitana de adeptos, ilhéus inclusive, açambarcando todo o mediatismo televisivo e deixando pouco espaço para a vida desportiva e para as saudáveis rivalidades locais e regionais. Que saudades. Como era diferente em outros tempos.

Fiquei a pensar. A noite estava fria e o campo do Caniçal fica exposto àquela brisa cortante vinda de nordeste. Nisso, nada de novo, dantes também era assim. Mas o ambiente não estava nada semelhante. Os adeptos eram escassos e a atmosfera pouco tinha de empolgante, como num passado ainda recente. Havia fraco entusiasmo. Parecia que todos faziam um frete para estarem ali, dentro e fora de campo. Para cúmulo, o terreno de jogo, caída a noite, estava quase às escuras, pois quase metade dos projetores do recinto estavam queimados. Só a boa vontade do árbitro permitiu que o desafio acontecesse. Fiquei a pensar. Como foi possível que isto viesse a acontecer? Sem nos apercebermos, parece que estamos a definhar. As pessoas e as instituições. Que é feito da vitalidade de outrora? Como é possível que num concelho onde o presidente da Câmara se gaba da enorme quantidade de atividades desportivas que apoia, a maioria, certo, para aparecer nos holofotes da comunicação social, não haja dinheiro para reparar meia dúzia de projetores no campo da freguesia mais jovem do concelho? Como é possível a atual situação dos clubes emblemáticos? Dá mesmo que pensar. E as desculpas habituais já não colam.

Depois das eleições autárquicas de 2013, com a oposição a conquistar sete das onze câmaras da Região, julgou-se que muito ia mudar para melhor na vida desses concelhos, em particular nos municípios mais afastados da centralidade funchalense. Puro engano. Da euforia de então, passou-se à desilusão atual. Hoje, passados mais de cinco anos, a nota é deveras negativa. Há, cada vez mais, um fosso intransponível entre a dinâmica da vida da capital e seus arredores e o marasmo que se vai apoderando das demais localidades madeirenses. Houve mesmo uma quebra acentuada na vitalidade social destas localidades. Parte da população emigrou. Os jovens que podem fogem para a capital. De noite e de dia. Há um ambiente sombrio onde já houve dinâmica e esperança. Voltou-se à pasmaceira do antigamente. A vida autárquica vai andando devagarinho. Não se passa nada que entusiasme a opinião pública local. Passado o empolado discurso da dívida, do coitadinho que carregava às costas a pesada herança deixada pelos antecessores, o balão esvaziou-se e, de repense, ouve-se um silêncio ensurdecedor. Os mais pessimistas, nesta terra primeira das descobertas, atrevem-se a vislumbrar “aquele espesso negrume” avistado pelos primeiros marinheiros que cá chegaram há seiscentos anos.

Não falta holofotes só no campo do Caniçal. Falta luz e imaginação em quem assumiu a responsabilidade pela governação do município.