A angústia dos que não podem morrer

A vida é um breve momento do tempo, que se vai preenchendo com marcos artificiais da sua passagem. São os aniversários de nascimento, o Natal, o que se convencionou ser o final de um ano e o começo de um outro e a sua euforia, a segunda à sexta do tempo de trabalho, coroado pelo dia da reforma, uma imensidão de datas voláteis, algumas que deixam só uma breve sensação vazia de final de festa, em que nada muda, em que continuamos os mesmos, só com aqueles traços etéreos colados nas nossas vidas e quantos mais marcos vamos preenchendo, mais perto vamos ficando da impossibilidade de estar.

Num ápice chegam os cabelos brancos, o distanciamento da frescura e do viço da juventude. Paradoxalmente a esta curva de degradação física, com matizes variáveis em cada um, nós continuamos intrinsecamente iguais. A idade só se nos revela ao espelho e interiormente é como se nada se passasse, continuamos donos das mesmas pulsões, das mesmas idiossincrasias, da mesma capacidade de se dar, de amar, de sonhar e vamos solidificando o que somos e a antevisão do fim faz relativizar a importância das coisas, passa-se a abraçar somente o essencial e tudo o resto se vai tornando minudente.

Mas a vida é injusta e não escorre para todos de igual forma. Para uns, ela sorri e permite sonhar até ao dia em que se esvai. Para outros, reduz-se a um mero jogo de luta pela sobrevivência, os que não concretizaram os sonhos ou nem puderam sequer sonhar e a vida é tão mais breve quanto vazia. Infelizmente para a nossa condição humana, a vida criou alguns de nós que não podem morrer, ou não podem fazê-lo sem que uma angústia essencial se apodere deles, a angústia a quem faltou a centelha, de quem não aforrou o suficiente para partir com a tranquilidade de deixar quem fica, seguro e confortável ou encarreirado num qualquer rumo de subsistência, de bem-estar. Partir é forçoso e as gerações vão-se substituindo, mas a vida é dura para aqueles que não podem morrer, aqueles cuja esperança está infantilmente canalizada para um jogo de fortuna e azar que nunca chega, aqueles cuja vida se bastou a uma entrega ilimitada àqueles em cuja memória se vão perpetuar, cujo coração se destroça na amargura de os abandonar inseguros, desamparados. E estão aqui tristemente todos os que trabalharam toda uma vida e que, quando julgavam poder disfrutar de um merecido descanso ou concretizar um desejo da vida deixado para o tempo da liberdade, eis que a morte de um filho, o desemprego de um genro, a desesperança do primeiro emprego de um neto, os torna de novo pais dos filhos e dos netos e não podem morrer.

Não falo aqui daquela reles pobreza sem vergonha que se limita a vigarizar os mecanismos da acção social do Estado ou os contornos dos subsídios de desemprego, enquanto alegremente se passeia na tasca, falo outrossim daqueles que trabalham com brio e estão no limiar da pobreza e que envergonhadamente procuram não a exibir e vão fazendo das tripas coração para manter a comida na mesa, em silêncio e sem esperança. Falo de um país lírico de Abril que continua a ostentar números ultrajantes de gente pobre.

Dirão os cínicos, a quem a vida premiou com afortunadas oportunidades, algumas Deus saberá como, que aqueles malfadados não souberam fazer pela vida, quando esta é madrasta para quem a tal oportunidade não chegou.

Esta angústia assola também uma parte da classe média assalariada, empobrecida e espoliada por planos de ajustamento económico, ditados em dobro às gentes insulares por agendas neoliberais que enxovalharam a social-democracia, impostas pelos usurários dos novos tempos, como forma de remediar a acção de uns patifes que elegeram, num país em que se desgraçam as finanças públicas ou a saúde de um banco do Estado, sem que nada aconteça, sem que haja responsáveis, como se não houvessem andado a brincar com o nosso dinheiro, numa gestão leviana da coisa pública. E, no entanto, a malta acostuma-se.

No dizer da brasileira Colasanti: “a gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá (…) a gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele (…) para evitar feridas, sangramentos (…) para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida, que aos poucos se gasta e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si
mesma.”