Acolher de braços abertos!

Etimologicamente, a palavra xenofobia deriva da conjugação dos termos “estranho” e “medo” e significa medo ou aversão aos estrangeiros.

O receio e a desconfiança por aquilo que é desconhecido e estranho são manifestações comuns a todos os seres humanos. Acontece em todas as sociedades e se não estiver associada a formas de ódio ou outro tipo de “patologia”, os sentimentos xenófobos podem ser facilmente desmontados, pela informação e pela educação. O problema é quando essa reação legítima, gerada pelo desconhecimento e pela ignorância, é instrumentalizada por ideologias políticas, com vista a gerar hostilidade generalizada para com essa diferença, com o objetivo final de obter benefícios eleitorais.

Em Portugal, felizmente, há poucas correntes ideológicas – e, mesmo essas, sem grande expressão! – que instilem o ódio e promovam sentimentos xenófobos, assentes nas diferenças culturais, de raça, religião ou nacionalidade. Há, contudo, sinais de alerta para os quais devemos estar atentos. E se tradicionalmente esses sinais vinham apenas de grupos extremistas, a verdade é que a promoção de sentimentos e atitudes xenófobas parece estar a constituir-se como uma estratégia eleitoral. Mas vamos por partes.

Eu cresci na Ajuda/Piornais, nos anos 80/90 do século passado. Para além do Bairro dos Piornais, tínhamos ainda o Edifício América e, principalmente, o Edifício Caracas, onde viviam muitas famílias que haviam regressado da Venezuela. Partilhei salas de aula e pátios e recreios com muitos lusodescendentes nascidos na Venezuela. Sinceramente, não me lembro de assistir a uma qualquer manifestação de preconceito ou xenofobia relativamente a esses meus colegas. Nos pátios de brincadeiras ou nos ambientes mais sérios das salas de aula. Nunca lhes perguntei, confesso, mas estou em crer que também eles não terão sentido dificuldades acrescidas de integração, salvo aquelas que são absolutamente normais, decorrentes de barreiras relacionadas com a língua, com as diferenças culturais e com o ambiente local, bastante diferente daquele que tinham deixado para traz.

Por isso, é com perplexidade que assisto a algumas manifestações de hostilidade, por parte de alguns nossos conterrâneos, para com aqueles que estão a regressar da Venezuela. E essa perplexidade passa a preocupação, quando aparecem notícias a dar conta de alguma discriminação que possa estar a haver na nossa sociedade relativamente a estas pessoas. Pior, fico ainda mais preocupado quando me chamam a atenção para a manipulação que alguns perfis falsos fazem nas redes sociais, espalhando mentiras, com vista a criar divisionismos na sociedade madeirense no que toca ao acolhimento destas pessoas.

Serei claro: no exercício das minhas funções não recebi uma qualquer queixa formal, por parte de qualquer migrante.

Mas há pouco tempo, fizeram-me chegar printscreens de posts e comentários – e até cartas, que passam de mão em mão! -, espalhados estrategicamente nas redes sociais e nalguns bairros (no caso das cartas), com informações falsas, visando instilar ódio para com os migrantes e para com o Governo Regional que tem estado, como não poderia deixar de ser, na linha da frente da integração destes migrantes.

É preciso dizê-lo sem qualquer tipo de reserva: para os que estão a regressar, é imperioso que as instituições públicas e privadas trabalhem cooperativamente, com o objetivo de facilitar o seu acolhimento e a integração.

E tem estado bem o Governo Regional, que não se nega a esforços para garantir essa integração através de políticas, iniciativas e ações assentes nos princípios da igualdade e da equidade entre todos os cidadãos.

Creio que esta é a nossa obrigação, não apenas porque os que estão a chegar à Região são madeirenses e seus filhos; não apenas porque esta comunidade na diáspora contribuiu indelevelmente para a nossa economia e ajudou ao nosso desenvolvimento, durante muitos anos; mas essencialmente porque nos devemos manter fiéis aos valores cristãos que nos fundaram, numa tradição que nos tem levado, ao longo de séculos, a acolher a diferença. Estou com aqueles que dizem que a hospitalidade é uma das nossas idiossincrasias e por isso temos a obrigação de receber e acolher, com um abraço fraterno, os filhos da terra e seus descendentes que, por um infortúnio da vida, se vêm obrigados a regressar e a procurar refúgio e abrigo entre nós. É essa a nossa matriz identitária, assente na solidariedade tão característica dos ilhéus, que devemos exaltar ante o miserável apelo ao ódio.

Mas que fique claro o seguinte: os apoios concedidos aos regressados da Venezuela jamais condicionarão apoios sociais ou direitos dos demais cidadãos. À luz do direito e da justiça, são todos tratados em condições de equidade, sendo que o apoio que estas pessoas necessitam não entra em qualquer conflito com os apoios sociais que outros possam necessitar.

Por outro lado, é fundamental que percebamos que esta migração é uma oportunidade fantástica para a Região, porque tem gerado muita dinâmica económica, com inúmeros investimentos que resultam na criação de emprego, mas também porque muitas das pessoas que estão a regressar reúnem competências extremamente úteis para o nosso desenvolvimento.

É por isso que temos de combater o preconceito e abraçar de peito aberto os migrantes da Venezuela: sean muy bienvenidos!

“Esta inversão humana do em-si e do para-si, do “cada um por si”, em um eu ético, dando prioridade ao para-outro, esta substituição do para-si, da obstinação ontológica de um eu, doravante decerto único, mas único pela sua eleição a uma responsabilidade pelo outro homem - irrecusável e inacessível - esta reviravolta radical produzir-se-ia no que eu chamo de encontro do rosto de outrem. Por trás da postura que ele toma - ou que suporta - em seu aparecer, ele chama-me e ordena-me do fundo da sua nudez, sem defesa, da sua miséria, da sua mortalidade. É na relação pessoal, do eu com o outro, que o “acontecimento” ético, caridade e misericórdia, generosidade e obediência, conduz além ou eleva acima do ser.

O que dizer então da humanidade na sua multiplicidade? O que dizer, ao lado do outro, do terceiro e, com ele, de todos os outros? Esta responsabilidade para com o outro que se defronta comigo, esta resposta ao rosto do próximo poderá ignorar o terceiro que é também meu outro? Não me diz respeito ele também?”

Emmanuel Levinas, Entre Nós